Renato Russo ganha homenagem em rua eternizada pela bossa-nova

A Rua Nascimento Silva, em Ipanema, bairro nobre da zona sul do Rio de Janeiro, está eternizada na música brasileira pelos versos escritos por Vinicius de Moraes, na letra de Carta ao Tom.

“Rua Nascimento e Silva, 107
Você ensinando pra Elizete
As canções de Canção do amor demais”

Rio de Janeiro (RJ), 26/07/2023 -A rua Nascimento Silva também faz esquina com a Rua Vinícius de Moraes, sendo considerada a

A Rua Nascimento Silva também faz esquina com a Rua Vinícius de Moraes, sendo considerada a Esquina da Bossa – Tânia Rêgo/Agência Brasil

O endereço é uma referência ao prédio em que morou o parceiro Tom Jobim, de 1954 a 1960. Uma placa indicativa dá um destaque ao imóvel e é ponto para visitantes tirarem uma selfie. A parceria entre os dois gênios da bossa-nova, aliás, é uma das justificativas para – a 80 metros do número 107 – a rua fazer esquina com a Vinicius de Moraes.

Agora, se um curioso pela história da música brasileira atravessar a rua e caminhar por oito minutos vai encontrar outra placa, uma que indica onde morou um dos grandes nomes do pop rock nacional. No número 378 da arborizada Nascimento Silva, um prédio de quatro andares, da época em que não era muito comum ter varandas, foi o último endereço do líder da Legião Urbana, Renato Russo. O cantor morou lá de 1990 a 1996.

Rio de Janeiro (RJ), 26/07/2023 - Prédio onde viveu Renato Russo se torna Patrimônio Cultural Carioca. Imóvel na Rua Nascimento Silva, em Ipanema, foi capa do primeiro álbum solo do cantor e recebeu placa azul do Circuito da Música. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil

Prédio onde viveu Renato Russo se torna Patrimônio Cultural Carioca – Tânia Rêgo/Agência Brasil

Um fã atento de Renato Russo vai perceber que a portaria do prédio aparece na foto de capa do álbum solo Stonewall Celebration Concert, de 1994. Renato está em pé, segurando uma flor.

Lugar para selfies

Apesar de ser uma rua tranquila e de pouco movimento, não demorou para a reportagem da Agência Brasil encontrar turistas querendo levar uma recordação do lugar. A psicóloga Riane Rebouças Veloso é de João Pessoa e surpreendeu-se ao passar pelo prédio. “Eu sabia que era por aqui, mas não sabia que era exatamente em frente onde a gente estava. Foi emocionante quando a gente se deparou. Uma surpresa bem bacana”, disse logo após tirar uma foto da fachada.

Emoção também para a filha dela. “É muito legal saber que a gente está tão perto de onde morou um dos maiores cantores do Brasil, se não, o maior”, contou a estudante Mariana Rebouças.

Rio de Janeiro (RJ), 26/07/2023 - Prédio onde viveu Renato Russo se torna Patrimônio Cultural Carioca. Imóvel na Rua Nascimento Silva, em Ipanema, foi capa do primeiro álbum solo do cantor e recebeu placa azul do Circuito da Música. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil

No imóvel, localizado na Rua Nascimento Silva, em Ipanema, Renato Russo compôs pelo menos cinco álbuns – Tânia Rêgo/Agência Brasil

A placa indicativa é uma iniciativa do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), da prefeitura do Rio de Janeiro, e transforma o lugar em Patrimônio Cultural Carioca. É uma forma de a cidade identificar bens e locais com valores ligados à cultura e à identidade do carioca. A placa oferece informações para que os visitantes conheçam mais sobre os determinados temas.

“O IRPH tem como atribuição proteger, conservar e valorizar o patrimônio cultural da cidade. O projeto Circuitos do Patrimônio Cultural Carioca tem como objetivo divulgar e informar sobre o rico acervo de bens culturais e as personalidades da cidade do Rio de Janeiro. A placa alusiva ao Renato Russo está no Circuito da Música e visa homenagear importantes compositores da música popular brasileira”, explicou a presidente do IRPH, Laura Di Blasi, no site da prefeitura.

Cinco álbuns

A placa no prédio onde morou Renato Russo oferece rápidas informações, como datas de nascimento e morte, a participação na Legião Urbana e que cinco álbuns nasceram naquele endereço.

“Renato Russo faz parte da história e do imaginário carioca. O Rio e o bairro de Ipanema foram escolhidos pelo artista como moradia e lá ele compôs pelo menos cinco álbuns. Esta homenagem é mais do que merecida e necessária para eternizar a parceria do Renato Russo com a Cidade Maravilhosa”, disse o subprefeito Flávio Valle.

Outros discos que Renato compôs no endereço são o V, O Descobrimento do Brasil e A Tempestade, da Legião Urbana; e o solo Equilíbrio Distante.

Biografia

Renato Russo

Renato Russo – Ricardo Junqueira/Direitos reservados

Renato Manfredini Júnior nasceu no Rio de Janeiro, em 1960. Mas os primeiros passos na carreira artística, ainda na adolescência, e a explosão para o sucesso se deram em Brasília. Em 1979 formou a banda Aborto Elétrico. Três anos depois, se tornou “O Trovador Solitário”, para logo em seguida criar a Legião Urbana. A partir de 1993 se aventurou também em carreira solo. Em quase duas décadas, Renato foi uma das vozes que mais embalaram ouvidos de uma geração.  

O cantor morreu em 11 de outubro de 1996, aos 36 anos, por complicações causadas pelo contágio pelo vírus HIV. Ele descobriu a doença em 1989, segundo o site oficial do artista, mantido pelo filho dele, o produtor cultural Giuliano Manfredini. 

A idolatria persiste até os dias de hoje, com uma produção musical que continua viva e atemporal para aqueles que tanto se identificam com as letras e reflexões.

Governo prepara plano para população em situação de rua


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O ministro dos Direitos Humanos e Cidadania, Silvio Almeida, informou neste sábado (29) que o governo federal prepara um plano voltado para a população em situação de rua. “Estamos desenhando, sob a coordenação do presidente Lula, uma grande política nacional em defesa das pessoas em situação de rua. Vai mobilizar uma série de outros ministérios, como o do Trabalho, da Saúde, do Desenvolvimento Social e Regional”.

Rio de Janeiro (RJ), 29/07/2023 - O ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania, Silvio Almeida, fala durante a conferência: Reflexões sobre Economia, Favela e Direitos Humanos, na Expo Favela Innovation, na Cidade das Artes, zona oeste do Rio. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil

Entre as ações está a regulamentação que veda uso de arquitetura hostil a presença de pessoas em situação de rua, diz Silvio Almeida – Foto: – Tânia Rêgo/Agência Brasil

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O ministro deu a declaração ao participar da Expo Favela Innovation 2023, feira de empreendedorismo que estabelece conexões entre favela e asfalto, na Cidade da Artes, na zona oeste da capital fluminense.

Entre as ações, segundo o ministro, está a regulamentação da Lei Padre Julio Lancellotti, que veda o uso da arquitetura hostil que cria elementos que dificultam a presença das pessoas em situação de rua, o programa Moradia Primeiro, que é pensar a moradia como elemento fundamental para pessoas em situação crônica na rua, além de programas de saúde e de emprego.

“Não é só dar a casa, é também organizar a vida das pessoas. Tem também as cotas do Minha Casa, Minha Vida para pessoas em situação de rua. Isso também já foi conversado com o ministro [das Cidades] Jader [Filho] e vamos produzir um decreto. O presidente Lula deve avaliar e vamos dar sentido e concretização para essa política”, disse Almeida.

Petrobras muda política de dividendos e reduz ganho de acionistas


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A Petrobras divulgou, na noite de sexta-feira (28), a nova política de distribuição de dividendos, parcela dos lucros distribuída aos acionistas, definida após reunião do Conselho de Administração da companhia. O percentual de remuneração caiu de 60% para 45% do fluxo de caixa livre (dinheiro à disposição no caixa).

O fluxo de caixa livre representa o valor que sobra no caixa após os investimentos. A nova política também ampliou a definição de investimentos para incluir a recompra de ações, quando a própria companhia adquire suas ações.

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As circunstâncias em que a estatal distribuirá dividendos também mudaram. O Conselho de Administração estabeleceu a remuneração mínima de US$ 4 bilhões por ano para exercícios em que o preço médio do barril de petróleo tipo Brent for superior a US$ 40 por barril.

A distribuição de 45% do fluxo de caixa livre só será aplicada quando a dívida bruta da Petrobras for igual ou inferior ao nível máximo de endividamento definido no Plano Estratégico 2024–2028 e quando a companhia obtiver lucro em um trimestre. Os dividendos serão, portanto, pagos a cada três meses.

A política atual estava em vigor desde 2011. Na época, o modelo estabelecia que a Petrobras pagaria 60% do fluxo de caixa livre quando a companhia tivesse dívida bruta abaixo de US$ 65 bilhões. No fim de 2021, a petroleira passou a permitir a antecipação de dividendos.

Aplicação

Segundo a Petrobras, a nova política já será aplicada ao resultado do segundo trimestre de 2023, que será divulgado na próxima quinta-feira (3). No documento, a petroleira informa que as regras da remuneração aos acionistas foram aperfeiçoadas para manter “o objetivo de promover a previsibilidade do fluxo de pagamentos de proventos aos acionistas, ao mesmo tempo em que garante a perenidade e a sustentabilidade financeira de curto, médio e longo prazos”.

Em relação à recompra de ações, a Petrobras informou que a prática está alinhada à das principais companhias petroleiras internacionais, “em complemento ao pagamento de dividendos”. As mudanças na política de dividendos e de recompra de ações haviam sido pedidas pelo Conselho de Administração em maio.

Histórico

A nova política era esperada com a mudança de governo. Em 2022, a estatal distribuiu R$ 215,8 bilhões em remuneração aos acionistas, inclusive ao governo, turbinada pelos fortes lucros decorrentes da alta do petróleo após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia.

O pagamento de dividendos ocorreu três vezes no ano passado, com retorno recorde de 67,77% por ação. Quem tinha R$ 1 mil em ações da Petrobras no fim de 2021 recebeu R$ 677,70 no ano passado. No primeiro trimestre deste ano, sob o novo governo, a estatal não mudou a política e distribuiu mais R$ 24,7 bilhões aos acionistas.

Se racismo é cotidiano, antirracismo também precisa ser, diz pedagoga


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A história e cultura afrobrasileiras são parte obrigatória dos currículos escolares brasileiros há quase 20 anos, quando foi publicada a Lei 10.639/ 2003, mas o cumprimento dessa lei está longe de ser universalizado. Uma pesquisa da organização não governamental Todos pela Educação mostrou que somente metade das escolas tinham projetos pedagógicos antirracistas em 2021, e essa proporção estava em queda.

Para a pedagoga Clélia Rosa (foto) consultora e pesquisadora das relações étnico-raciais na educação, há um descompromisso institucional com o respeito a essa lei. Essa indiferença, somada ao mito da democracia racial, traz um prejuízo ético na formação dos estudantes.

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“Quando a escola diz, nos seus currículos, que forma cidadãos críticos, cidadãos reflexivos, que possam atuar frente às situações, etc e etc, como é que você forma um cidadão crítico que não compreende a pauta racial num país majoritariamente negro? Como é que você forma um cidadão crítico que silencia diante de uma situação de racismo? Como é que se forma um cidadão crítico que não sabe a real história da fundação e do desenvolvimento cultural, político e social desse país? Então, é um prejuízo enorme para todas as pessoas”, critica a pedagoga, em entrevista à Agência Brasil.

Palestrante da primeira Edição da Eduko, que acontece nesta sexta-feira e sábado em Belo Horizonte, Clélia Rosa defende que um projeto pedagógico antirracista sério depende de formação continuada dos docentes e não pode se restringir a datas comemorativas ou episódios específicos. Nesse contexto, ela exalta o papel de famílias negras, que tem impulsionado esse avanço ao cobrar essa discussão nas escolas.

Agência Brasil: Que passo além o projeto pedagógico precisa dar para ser antirracista?

Clélia Rosa: O passo além é trazer esse conteúdo em todos os dias letivos do ano. Eu costumo dizer que se o racismo é cotidiano, o anti-racismo também precisa ser. O projeto pedagógico não pode tratar a questão racial no seu currículo de maneira efêmera, esperando uma data específica, um acontecimento específico. O passo além é o que baliza a Lei 10.639, que é a inclusão desse conteúdo em todo currículo da educação básica, da educação infantil ao final do ensino médio. Vou falar de uma maneira simples, embora não seja: o passo além é fazer o que tem que ser feito. Embora, em uma sociedade racista, como a nossa, fazer o que tem que ser feito é uma complexidade muito grande, porque a gente precisa enfrentar as inúmeras barreiras que o racismo coloca.  

Agência Brasil: Este ano a Lei 10.639 completa 20 anos, mas a ONG Todos Pela Educação divulgou uma pesquisa que mostra que os projetos antirracistas ainda estão apenas em metade das escolas, e houve até uma queda nos últimos anos. Por que a gente está tão longe de universalizar esse ensino previsto em lei?

Clélia Rosa: Está longe porque a gente precisa ainda, na minha perspectiva, vencer o mito da democracia racial, que imperou e, de certa forma, impera fortemente nas instituições e na escola também. Eu acho que existe ainda uma dificuldade também de se compreender o que é o racismo e, na medida em que não se compreende o que é de fato essa opressão, fica muito mais difícil combater. No âmbito dos 20 anos da lei, o que a gente vai observando é, de certo modo, um descompromisso das instituições públicas e privadas. A dificuldade são essas escolas que ainda não entenderam o seu papel e a importância dessa base legal. Isso somado à ideia do mito da democracia racial e somado ainda a uma ideia de que a questão enfrentamento ao racismo no Brasil é um problema das pessoas negras. Infelizmente, essa ideia ainda paira.

Agência Brasil: Para você que acompanha a implementação da lei nesses 20 anos, como você avalia que os obstáculos a ela mudaram? Eles são os mesmos de 2003? Há obstáculos novos?

Clélia Rosa: Uma coisa que mudou substancialmente foi a produção de material, de referencial teórico de qualidade para balizar todas as práticas. A gente está falando de 20 anos da Lei 10.639 ao mesmo tempo em que estamos falando de 20 anos de ações afirmativas no Brasil, o que acarretou o aumento da entrada de estudantes negros e negras nas universidades e nas pesquisas de pós-graduação, mestrado e doutorado. A produção científica, a partir de pesquisadores negros e negras, aumentou, do mesmo modo que aumentou significativamente a produção de literatura infantil e infanto-juvenil. Não há mais motivo de a gente continuar lendo para as crianças as mesmas histórias e apresentando os mesmos autores. A barreira que existia antes, em que se dizia que não havia material disponível, que não havia referência disponível, não existe mais. E, felizmente, a produção só tende a aumentar. Nesse sentido entendo que uma barreira importante que precisa ser derrubada é o comprometimento das instituições, o que está ligado a uma ampla e efetiva formação continuada dos seus docentes. Sem formação, fica muito difícil implementar e fazer isso ir para a sala de aula de maneira séria e potente.

Agência Brasil: Sem essa formação continuada, o que acontece?

Clélia Rosa: Ao longo desses 20 anos, o que a gente, infelizmente, também tem notícia é de práticas muitas vezes equivocadas, de práticas racistas ainda que vestidas de uma boa intenção, que estão na contramão do que é potência, reforçando estereótipos e estigmas. Então, a formação continuada do corpo docente, a formação continuada em serviço, ela é uma estratégia extremamente importante para implementação efetiva da lei. Sem a formação, fica muito difícil fazer um trabalho sério e coerente. Sem a formação, a questão racial vira uma coisa efêmera, vira uma coisa de data comemorativa, e não é disso que a gente tá falando. A gente está falando de um ano letivo com mais de 200 dias.   

Agência Brasil: Como pedagoga e consultora, quais erros mais frequentes você vê nessa tentativa de trazer o antirracismo para o projeto pedagógico?

Clélia Rosa: Um erro frequente é não entender que se trata de uma questão do Brasil, ou seja, de todos nós. Nesse sentido, não tem a ver se você tem ou não um aluno negro na sua sala. Sobretudo quando a gente está falando das escolas privadas. Se a gente ainda tem um número expressivo de escolas públicas que não cumprem a lei, o número de escolas privadas é muito maior. O número de estudantes negros nas escolas privadas, estatisticamente falando, é menor do que na rede pública, mas isso não deve ser de forma alguma um motivo para não trabalhar esse assunto. Um erro frequente é entender que esse é um assunto da população negra, que preciso ter um aluno negro, como se esse conteúdo fosse endereçado a esse aluno. Outro erro é não ampliar o repertório de referências e narrativas negras e continuar utilizando as mesmas narrativas eurocêntricas, brancocêntricas e não colocando pesquisadores e narrativas negras como protagonistas do trabalho pedagógico. Um apego a referências eurocentradas. Essas referências foram importantes nos 1980, 1990, mas quando a gente olha para o futuro, para a educação do presente e pensa no futuro, a gente precisa ter coragem de abandonar alguns referenciais e abraçar outros que condizem com o projeto de país e de sociedade que a gente quer.

Agência Brasil: E esse é um assunto para os professores de todas as disciplinas, inclusive de exatas?

Clélia Rosa: Sem dúvida. O texto da lei é muito enfático e diz que esse conteúdo precisa ser trabalhado em todo o currículo escolar. E aí, tem um destaque para as áreas de História, Artes e Literatura. Só que a interpretação é como se tivesse focado nelas e engolido o que vem antes, que é todo o currículo escolar. Quando a gente vai para a área das ciências biológicas e exatas, para que esses docentes consigam trazer esse repertório, eles vão precisar voltar para as suas bases de estudo, para as referências que eles têm. Como é que a gente faz uma educação emancipatória sem usar referências emancipatórias? Esse professor vai precisar dar alguns passos em outras direções. Não é dar passos atrás. É dar passos para se aproximar de outras produções e referenciais teóricos. É entender que a produção do conhecimento não é exclusividade da Europa. A produção de saberes existe em outras partes do mundo, e no caso conteúdo africano e afrobrasileiro, essas áreas de conhecimento precisam se voltar para continente africano e reconhecer a produção científica dos pesquisadores africanos e dos pesquisadores negros em diáspora. É tirar a Europa da posição de centro único do saber. Outros cantos do planeta produziram saberes inclusive anteriores. É um exercício de coragem e de mudança de rota.

Agência Brasil: E a formação de novos professores mudou para atender a essa nova realidade?

Clélia Rosa: O curso de pedagogia também prevê que haja disciplinas na graduação que abordem a Lei 10.639 e que falem sobre educação e diversidade. Então, essa nova geração de professores certamente está tendo acesso a conteúdos que eu, por exemplo, que me formei como pedagoga no final dos anos 1990, não tive. Eu fui formada, a minha base de formação nas questões raciais, foi primeiro no movimento negro, de mulheres negras, na luta dos movimentos sociais. E, depois, de forma acadêmica, já na pós-graduação. Quando eu me formei, esse era um assunto que sequer era tratado.

Agência Brasil: Voltando o olhar para os alunos, negros e brancos, qual é o prejuízo que eles têm por estarem em escolas que desrespeitam essa lei?

Clélia Rosa: Eu vejo como um prejuízo ético e na formação de cidadania dessas crianças e jovens, que se dá também na escola. A escola é um espaço importante para a nossa formação. Com a ausência desse conteúdo, essas crianças e jovens não conseguem, ao longo da sua trajetória escolar, se conectar com a real história desse país. Não conseguem entender o porquê da ausência de pessoas negras nos espaços de poder econômico, de poder político e de poder científico, e normalizam essa ausência. Quando a escola diz, nos seus currículos, que forma cidadãos críticos, cidadãos reflexivos, que possam atuar frente às situações etc e etc, como é que você forma um cidadão crítico que não compreende a pauta racial num país majoritariamente negro? Como é que você forma um cidadão crítico que silencia diante de uma situação de racismo? Como é que se forma um cidadão crítico que não sabe a real história da fundação e do desenvolvimento cultural, político e social desse país? Então, é um prejuízo enorme e é para todas as pessoas. A professora Nilma Lino Gomes diz que não trabalhar na perspectiva antiracista é também negar o direito cognitivo dessas crianças e jovens, enquanto cidadão, sujeito político e profissional. Não tenho dúvidas de que a ausência desse conteúdo é prejudicial para todas as crianças e todos os jovens, independentemente do seu pertencimento racial.

Agência Brasil: O que esse conteúdo promove de resultado positivo para os estudantes negros e indígenas, especificamente?

Clélia Rosa: Sobretudo, esse jovem e essa criança negra e indígena veem os seus iguais em situações de protagonismo. Porque a escola que nos formou, a escola que formou a criança que eu era no finalzinho dos anos 1970, nos anos 1980, colocou sempre a população negra à margem, nas bordas do desenvolvimento do Brasil. E, muito mais tarde, eu fui aprender que, embora a população negra estivesse vivendo à margem, ela foi o centro da construção do Brasil. O protagonismo da construção desse país é e foi feito por mãos negras. Não se trata de uma contribuição. A população negra não contribuiu para a formação do Brasil, ela formou o Brasil. Do mesmo modo que a população indígena. A fundação do Brasil é da população indígena. Sem as mãos negras e indígenas, sem esses saberes, o Brasil não teria se constituído. É lógico que há também os saberes europeus, mas a marca da violência foi e é muito grande, e deixa a população negra e indígena à margem. Quando a gente traz para as crianças que não fomos a margem, mas o centro da construção desse país, através de nossos saberes e tecnologias ancestrais, é um mecanismo potente para a construção da autoestima e para um deslocamento que nos coloca como produtores e detentores de conhecimento.

Agência Brasil: Os avanços que a lei já proporcionou são perceptíveis nas crianças e adolescentes que estão saindo dessas escolas em que a educação antirracista foi à frente?

Clélia Rosa: Não teria como dimensionar isso olhando para o Brasil como um todo. Uma pesquisa recente do Instituto Alana, realizada junto com o Geledés – Instituto da Mulher Negra que percorreu os 5 mil municípios do Brasil, revela algo que é muito assustador: 70% das redes municipais de educação não cumprem a lei e não têm práticas antirracistas. É um número muito expressivo. Mas acredito que, nas escolas que tiveram compromisso da gestão e de toda a equipe, certamente seus estudantes saem com outra visão de mundo e de sociedade. Mas não posso deixar de ressaltar que, para além do trabalho dessas escolas, há também o trabalho de muitas famílias negras que vêm investindo e falando sobre a questão racial em suas casas. Eu sou de uma geração que, na minha casa, o racismo não era um assunto que se falava em casa, à mesa. Sofríamos o racismo e todo o impacto do racismo estrutural e da violência do Estado, mas não era um assunto trazido verbalmente. Isso mudou. As famílias têm falado sobre isso. Eu sou mãe e falo sobre isso com as minhas filhas. As famílias romperam com o silêncio. Essa juventude muito mais engajada e conhecendo seus valores, valorizando sua ancestralidade, sua história, é trabalho de algumas escolas que fizeram uma educação antirracista mas é também uma nova forma de educar dentro de casa. Muitas escolas iniciam seus projetos antirracistas, dão o pontapé inicial nessa perspectiva porque as famílias foram lá bater na porta. A partir dessa família que não silencia, muitas escolas foram impulsionadas e começaram a se aproximar de todo um trabalho que já existe. E as crianças negras que já têm outra mentalidade e falam sobre isso recebem um reforço da família e da escola, estão sendo duplamente amparadas.

Agência Brasil: Seguindo nesse ponto da comunidade escolar por um sentido inverso, a gente vê hoje alunos e pais filmando professores, trazendo pautas extremistas e fundamentalismos religiosos para a escola. Qual é o peso e a dificuldade que isso está tendo contra o avanço da educação antirracista?

Clélia Rosa: O fundamentalismo é um complicador em todos os sentidos. Quando os pais vão para a escola criticar um projeto, dizer que são contra, que querem que seus filhos não assistam a determinado conteúdo, é fundamental que nós entendamos o funcionamento da lei e tenhamos isso como nosso aliado. Somos nós, educadores, que sabemos o que precisa ser ensinado. A gente precisa mostrar para essas famílias que quem entende do riscado da escola dos muros da escola para dentro é o educador, é a gestão da escola. Não é uma família fundamentalista que vai dizer como eu vou trabalhar, primeiro porque eu sou formada e tenho diploma para isso, e segundo porque tenho uma legislação que baliza a minha prática. Existe uma fundamentação teórica e uma base legal para fazer esse trabalho. Cada vez mais nós, educadores e comunidade escolar, temos que nos agarrar à base legal. Pra resumir, costumo dizer que uma família pode chegar na escola com seu senso comum, com seu achismo, dizendo que viu algo na televisão, no grupo de Whattsapp, no Tik Tok. Mas ela não pode sair da escola com essas informações. Ao chegar com essas informações equivocadas, eu tenho que dar as informações que valem, tenho que mostrar como funciona.

Mineradora Samarco entrega plano de recuperação judicial


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Responsável pelo desastre ambiental que matou 18 pessoas em Mariana (MG) em 2015, a mineradora Samarco entregou nesta sexta-feira (28) ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais o plano de recuperação judicial. O documento resulta de acordo fechado com os acionistas e parte dos credores financeiros.

Pelo plano, a Samarco, controlada pela Vale e pela BHP Hilliton, emitirá títulos de dívida para pagar os credores financeiros. Por meio desses papéis, a companhia captará recursos no mercado prometendo devolver o dinheiro com juros.

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Caberá aos acionistas financiar a reparação do rompimento da barragem em Mariana, da emissão dos novos títulos de 2024 até o pagamento integral. A compensação, inclusive os pagamentos à Fundação Renova, entidade responsável pela compensação dos danos, está estimada em mais de US$ 1 bilhão.

Títulos

Em relação aos títulos, a Samarco emitirá até US$ 3,566 bilhões em novas notas com vencimento em junho de 2031 com juros entre 9% e 9,5% e sem garantias (bens que podem ser dados em troca em caso de inadimplência da companhia). Os credores que optarem por receber as notas em troca do cancelamento das dívidas da mineradora receberão esses papéis.

Os credores que concordarem com o abatimento de 25% das dívidas receberão outro título, com vencimento em 2035. Os funcionários (credores Classe 1) com crédito de até R$ 1,5 milhão cada, as micro e pequenas empresas (credores Classe 4) e os fornecedores estratégicos da Classe 3 (quirografários, sem garantia) serão pagos integralmente.

Quaisquer acordos com autoridades públicas brasileiras para a reparação do desastre ambiental deverão ser preservados, segundo o plano. Além disso, a mineradora deverá continuar a investir em nível sustentável para ampliar as operações com segurança.

Redução da dívida

Após ficar sem operar de novembro de 2015, quando ocorreu o rompimento da barragem em Mariana, até 2020, a Samarco entrou em recuperação judicial há dois anos. O plano entregue na sexta-feira (28) à 2ª Vara Empresarial da Comarca de Belo Horizonte, segundo a companhia, permite a redução da dívida, atualmente em US$ 9,7 bilhões, em torno de R$ 46 bilhões pelo câmbio atual.

A proposta será analisado pelo Tribunal de Recuperação Judicial, sem a necessidade de uma assembleia geral de credores. Se aprovado, precisará ser reconhecido pelo Tribunal de Falências dos Estados Unidos do Distrito Sul de Nova York.

Prefeitura de SP abre vagas para mães de alunos da rede municipal


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A prefeitura de São Paulo abriu inscrições para mães de alunos que desejam atuar em escolas. Segundo a administração municipal, foram abertas duas mil vagas no Programa Operação Trabalho (POT) Mães Guardiãs na modalidade alimentação escolar.

As mães vão apoiar atividades escolares nas hortas mantidas pelas unidades, no acolhimento dos alunos e disseminação de uma cultura de paz e não-violência. As participantes contam com bolsa-auxílio no valor de R$ 1.386 e desempenham atividades de segunda a sexta-feira, com carga horária de 30 horas semanais, seis horas por dia. A participação será por 12 meses, com possibilidade de renovação pelo mesmo período.

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Segundo a secretária municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho de São Paulo, Aline Cardoso, a ação une geração de renda, capacitação profissional e fortalecimento de vínculo entre as mulheres e seus filhos. “Vamos para mais uma etapa do programa iniciado durante a crise pandêmica, que já passou por reformulações para combater a evasão escolar e agora passa a contar com uma nova modalidade voltada à alimentação dos alunos da rede escolar, trazendo novas experiências para as participantes”, disse em nota.

As interessadas precisam ter entre 18 e 59 anos de idade, morar na capital, estar desempregada há mais de quatro meses e não estar recebendo neste momento o seguro-desemprego. Outras exigências são renda familiar de até meio salário mínimo por pessoa da família e ter filho matriculado na rede municipal de ensino ou pertencer à comunidade escolar.

Para participar, basta preencher o formulário disponível no site