Marcha das Mulheres Negras toma conta de Copacabana


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Mulheres negras de várias partes do estado do Rio de Janeiro tomaram conta da orla de Copacabana neste domingo (30). Elas participaram da 9ª Marcha das Mulheres Negras, que levou para o bairro da zona sul carioca o lema Mulheres Negras Unidas contra o Racismo, Toda Forma de Opressão, Violência e pelo Bem Viver.

A manifestação foi organizada pelo Fórum Estadual de Mulheres Negras – RJ e contou com a participação de diversos coletivos ligados ao combate da desigualdade racial. O evento fecha a semana de mobilização pelo Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, em 25 de julho, e acontece na véspera do Dia Internacional da Mulher Africana. 

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A escritora Maria da Conceição Evaristo, dona de uma produção literária que combate a opressão do povo negro, leu o manifesto de abertura da marcha. “Vamos ocupar uma das orlas brasileiras de maior visibilidade, é um ato de coragem e denúncia”, disse ao microfone para as milhares de negras presentes.

“Marchamos pelo bem viver. O bem viver convoca a uma política de participação coletiva da população negra, de construção de poder horizontal e de distribuição dos lugares de decisão para mulheres negras”, completou a escritora que, neste mês, inaugurou um centro cultural na região conhecida como Pequena África, no Rio de Janeiro.  

Ao lado de Conceição Evaristo, cerca de dez griôs carregavam uma faixa de abertura da marcha, com o tema da edição deste ano. Griôs são contadoras de histórias, muito respeitadas nas comunidades onde vivem.

Rio de Janeiro (RJ), 30/07/2023 - A escritora, Conceição Evaristo, participa da IX Marcha das Mulheres Negras do Rio de Janeiro, na praia de Copacabana, zona sul da cidade. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil

A escritora Conceição Evaristo, na IX Marcha das Mulheres Negras do Rio de Janeiro – Tânia Rêgo/Agência Brasil

Juventude

A Marcha das Mulheres Negras também abriu espaço para jovens lideranças, inclusive crianças. Alia Terra, de apenas 10 anos de idade, foi uma das ativistas que discursaram. “A gente está batalhando aqui com todas as mulheres, sempre unidas, contra todo tipo de violência e racismo e pelo bem viver”, bradou, sendo ovacionada em seguida.

O ato seguiu pela orla de Copacabana com gritos de “vem para a marcha, vem!”. As participantes carregavam faixas, cartazes e ostentavam placas como retratos de mulheres negras que lutaram pela defesa, respeito e empoderamento da população preta, como a escritora Carolina Maria de Jesus, a cantora Elza Soares, a intelectual Lélia Gonzalez, a líder quilombola no século 18 Tereza de Benguela, e a vereadora carioca Marielle Franco, assassinada em 2018.  

Marielle presente 

A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, irmã de Marielle, esteve na passeata e disse ser uma importante ressignificação ter tanta mulher negra reunida na orla de um bairro onde costumam apenas trabalhar.

“A gente está em marcha, a gente não está dispersa, pelo contrário. Que bom que a gente tem o governo federal à frente de políticas públicas eficazes, de saúde a educação, segurança, que é o mais importante. É a nona marcha. A gente sempre marchou e vai continuar marchando. Estar ao lado dessas mulheres, para mim, está dando um sentimento de acalanto e fortalecimento nesse lugar”. 

A ministra lembrou que a irmã sempre participava das marchas. “Mari, se estivesse aqui, com certeza estaria abrilhantando muito essa marcha, estaria aqui à frente. A Mari não estar aqui significa que toda e qualquer mulher para ter que estar aqui também corre perigo, então, enquanto a gente não conseguir descobrir quem mandou matar e por quê, significa que as mulheres negras, a democracia, quem está aqui à frente, corajosamente, colocando o seu corpo nesse lugar, onde historicamente não é para a gente, também corre perigo”, disse Anielle.  

A advogada Marinete da Silva, mãe de Marielle, lembrou que a marcha acontece no mês em que a filha faria aniversário. “Estamos aqui para, a cada dia, dizer que estamos assumindo cada vez mais esse poder e esse lugar de fala, que é nosso. Esse julho que nos representa. É o julho das pretas”, disse.

Negra no Supremo  

Lembrando que no ano que vem acontecem eleições municipais, Clatia Vieira, uma das organizadoras da marcha, defendeu que as mulheres negras ganhem mais espaço na política. Ela levantou ainda outra bandeira do movimento: a esperança de uma negra ocupar a próxima vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal.

“Nós trabalhamos para isso, nós construímos. É nesse governo que as mulheres negras, pela primeira vez na história, vão sentar naquela cadeira, para que as nossas pautas sejam discutidas com a gente”.

A próxima vaga na corte máxima do Judiciário brasileiro vai ser aberta em outubro deste ano, com a aposentadoria compulsória (75 anos) da ministra Rosa Weber. O nome do futuro ministro é uma escolha do presidente da República, e precisa ser aprovado pelo Senado. 

Desafios 

Clatia Vieira lembrou que a marcha não é uma festa, e sim um movimento para enfrentar lutas. Números comprovam que a situação da mulher negra é desafiadora. Elas são 67% das vítimas de feminicídios e 89% das vítimas de violência sexual. No mercado de trabalho, são as que sofrem mais com o desemprego.

Leonídia Carvalho, é presidente do Quilombo Dona Bilina, em Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro. Para ela, o ato deste domingo é também pela soberania alimentar da população preta.

“Estamos lutando por várias lutas que foram pautadas ao longo da história, após a libertação [fim da escravidão], quando foram tirados do povo negro o direito à terra, à moradia, à plantação, à alimentação de qualidade. Essa marcha representa uma luta dessas mulheres que estão em casa, nas cozinhas delas e não têm o alimento de qualidade, é uma luta antirracista e pela soberania alimentar”. 

A manifestação contou com a participação de grupos de música, como o Filhos de Gandhi, que completou 70 anos.

Rio de Janeiro (RJ), 30/07/2023 - IX Marcha das Mulheres Negras do Rio de Janeiro, na praia de Copacabana, zona sul da cidade. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil

Marcha das Mulheres Negras na praia de Copacabana, zona sul da cidade – Tânia Rêgo/Agência Brasil

Passagem de geração 

Algumas das mulheres presentes na marcha fizeram questão de levar filhos pequenos, em um esforço para preservar e passar adiante o interesse pela luta antirracista.  

Pulchéria Silva é de Volta Redonda, cidade no sul do estado do Rio de Janeiro, que fica a mais de duas horas de carro de Copacabana. Ao mesmo tempo em que acompanhava a marcha, ela amamentava o filho de 1 ano e 7 meses.

“Temos que nos posicionar, demonstrar para a sociedade a nossa conscientização, as nossas lutas e a valorização que vem crescendo, cada vez mais, da mulher negra”, disse à Agência Brasil, afirmando acreditar que a presença do filho é uma forma de fazê-lo crescer com consciência nas raízes dele.  

Dia Internacional 

O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (25 de julho) foi criado pela Organização das Nações Unida (ONU), durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, em Santo Domingo, na República Dominicana, em 1992. No Brasil, a data também é uma homenagem à Tereza de Benguela, conhecida como Rainha Tereza, que viveu no século 18, no Vale do Guaporé, em Mato Grosso, e liderou o Quilombo de Quariterê.

O Dia Internacional da Mulher Africana, celebrado em 31 de julho, foi criado em referência à Conferência das Mulheres Africanas, em 1962, na cidade de Dar Es Salaam, na Tanzânia. 

Manifestação pede fim da permissão para abate do jumento no Brasil 


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Uma manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, na tarde de hoje (30), denunciou o abatimento desmedido de jumentos no Brasil. O ato, chamado Quinta Ação Nacional Contra o Abate de Jumentos, estava previsto para ocorrer também em mais 14 capitais do país e pede o fim da permissão do governo federal e do governo do estado da Bahia para o abate desses animais. Em Brasília, o ato ocorreu no eixão do lazer, no centro da capital.

De acordo com a Frente Nacional de Defesa dos Jumentos, que organizou a manifestação, os animais correm o risco de serem extintos para atender a uma demanda comercial: a produção do ejiao, produto extraído do colágeno da pele do animal e utilizado na China como medicamento. 

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Segundo o coordenador jurídico da Frente Nacional de Defesa do Jumentos, Yuri Fernandes Lima, o abate está concentrado em três abatedouros no estado da Bahia.

“Esses abatedouros têm autorização federal para exportação, o SIF [Serviço de Inspeção Federal]. E a gente pede o fim [da autorização para] o abate, porque essa atividade está levando o jumento à extinção”, destaca.  

De acordo com o advogado, não há uma cadeia produtiva organizada para o abate do animal. “A atividade é extrativista. Não tem criação, não tem cadeia produtiva, eles simplesmente coletam, compram, às vezes até furtam, e levam os animais para fazendas de espera. Depois para os abatedouros. Aí eles abatem e exportam a pele pra China”, ressalta. 

Brasília (DF), 30/07/2023 - Entidades de proteção dos animais, ativistas e advogados realizam manifestação contra o abate de jumentos no Brasil. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Ativistas e advogados, no centro de Brasília, em ato contra o abate de jumentos no centro de Brasília – Marcelo Camargo/Agência Brasil

Histórico

Em 2018, a frente que atua defesa dos jumentos ajuizou uma ação civil pública na Justiça Federal em Salvador e conseguiu suspender liminarmente os abates. Em 2019, no entanto, a liminar foi cassada por decisão do vice-presidente do Tribunal Regional Federal da Primeira Região (TRF-1). Em 2022, a frente conseguiu restabelecer a liminar no TRF-1. 

“Só que havia uma decisão anterior, de setembro de 2021, do mesmo órgão, em sentido contrário. Então a União, principalmente, está comentando que vale a primeira decisão, a mais antiga, no sentido de manter a suspensão da liminar, ou seja, manter os abates. E a gente está alegando que vale a segunda decisão, mais recente, de fevereiro de 2022, que proíbe o abate. Estamos agora nessa celeuma jurídica”, diz Lima. 

De acordo com a Frente, apenas em abatedouros sob o Serviço de Inspeção Federal no estado da Bahia, 78.964 jumentos foram abatidos entre fevereiro de 2021 e junho de 2022, números que não abrangem as mortes que ocorrem durante o transporte nem as causadas por doenças. Já a queda do número desses animais no país pode chegar a 38%, de 2011 a 2017, segundo dados citados pela frente. 

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Ao menos seis morrem em confrontos entre facções palestinas no Líbano


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Pelo menos seis pessoas foram mortas em dois dias de confrontos em um campo de refugiados palestinos no Líbano, onde a facção dominante Fatah lutou contra grupos rivais, disseram fontes de segurança.

Um comandante do Fatah foi morto neste domingo (30) em uma emboscada que também feriu vários de seus auxiliares no campo de Ain el-Hilweh, perto da cidade libanesa de Sidon, na costa sul.

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O local, considerado o maior campo de refugiados no Líbano, estava lotado. Segundo uma fonte de segurança, quatro dos auxiliares morreram mais tarde devido aos ferimentos.

A fonte disse ainda que confrontos se intensificaram no domingo.

Os conflitos começaram no sábado (29)  com uma tentativa fracassada de assassinato de um líder de um grupo simpatizante dos islâmicos linha-dura, na qual uma pessoa foi morta.

Seguiram-se tiros e ataques de militantes armados contra o quartel-general do Fatah.

Uma testemunha disse que lojas fecharam suas portas e algumas pessoas fugiram do local, enquanto a tensão entre os grupos rivais aumentava neste domingo. O exército libanês disse que um morteiro caiu dentro de um quartel-general militar deixando um soldado ferido.

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Jogos Mundiais Universitários – Dia 7: vitória épica no vôlei feminino


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Fim da primeira semana de viagem. O domingo (30) reservou a vitória mais emocionante até aqui dos Jogos Mundiais Universitários de Chengdu (China). Era o último evento do dia e o ginásio da Universidade local, ao lado da Vila dos Atletas, estava lotado. No setor destinado a atletas e dirigentes, os brasileiros estavam em desvantagem.

Brasil e Polônia abriram o Grupo A do vôlei feminino. E o início polonês foi devastador. Só que, quando chegaram ao 20º ponto do primeiro set, as polonesas viram que não ia ser fácil. As brasileiras reagiram, mas não o suficiente para vencer: foram superadas por 25 a 21.

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Já no ritmo e confiante, o Brasil alternou a liderança da segunda parcial. O equilíbrio marcou a disputa, só que as polonesas novamente levaram a melhor: 25 a 22. Os torcedores poloneses na arquibancada estavam entusiasmados, as jogadoras dentro de quadra também. Aí o jogo começou a virar.

A torcida brasileira incentivou e contou com o reforço de três atletas da África do Sul, que roubaram a cena dançando e dando apoio às brasileiras. Na quadra, as jogadoras ganharam confiança e passaram a forçar o erro das adversárias. Foram dois sets seguidos ditando o ritmo da partida: 25 a 23 e 25 a 19.

O Brasil foi para o tiebrake com muita moral, mas perdeu um pouco a concentração no início. A Polônia chegou a abrir cinco pontos de vantagem. E, mais uma vez, tudo parecia perdido e os poloneses no ginásio já cantavam vitória. Em uma arrancada inacreditável, a seleção brasileira empatou o jogo, para deliro do público, e levou de virada o tiebreak por 16 a 14, vencendo a partidas por 3 sets a 2.

seleção brasileira feminina de vôlei comemora vitória de virada sobre Polônia, nos Jogos Mundiais Universitários, em 30/07/2023

Seleção feminina volta à quadra na terça-feira (2 de agosto) contra enfrenta Taipei (China), em duelo a partir das 9h (horário de Brasília)  – Saulo Cruz/CBDU/Direitos Reservados

Ao fim da partida, a líbero Laís desabafou.

“Foi suado. Se não for complicado, não é Brasil. Mas conseguimos sair com a vitória muito importante. Terça-feira tem mais um jogo, que precisamos ganhar para sermos primeiros no grupo. A torcida brasileira abraçou o time, sentimos aquele calor e a gente vai que vai”.

Maior pontuadora do Brasil, com 17 pontos, Sabrina Machado acreditou desde o início.

“A gente lutou até o final. A gente é brasileiro, não desiste nunca. A gente foi buscando. Tava difícil, a gente foi ajustando e conseguiu o resultado. A gente estava um pouco nervosa no início. Na medida que a adrenalina foi baixando, todo mundo passou a ir pra cima, ficamos mais agressivas e o jogo ficou melhor para a gente”.

O próximo compromisso do Brasil é contra Taipei-China, na terça-feira (01), às 9h (horário de Brasília). Os Jogos Mundiais Universitários têm transmissão ao vivo gratuita na internet. Confira o cronograma completo das competições. A delegação brasileira está em Chengdu com 150 atletas de 11 das 18 modalidades em disputa no evento:  saltos ornamentais, badminton, tênis de mesa, taekwondo, kung fu (a arte marcial é denominada de wushu na China), basquete, natação, atletismo, judô, tênis e voleibol.

* Maurício Costa viajou como integrante da delegação da Confederação Brasileira de Desporto Universitário (CBDU). A entidade convidou a EBC para participar da cobertura durante os 17 dias de competição em Chengdu.

Medicalização da Vida é tema do Caminhos da Reportagem de domingo

Em 2022, o mercado farmacêutico brasileiro movimentou R$ 106,64 bilhões, representando um aumento de 61% em relação a 2018. Cada dia que passa é maior a quantidade de farmácias pelo Brasil. De acordo com o Conselho Federal de Farmácia, já existem aproximadamente 90 mil estabelecimentos no país. 

Estamos mais saudáveis pois tomamos mais remédios? Ou estamos mais adoecidos? A opinião do psiquiatra e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Paulo Amarante é que estamos ficando cada vez mais doentes por efeito da própria medicina.

Medicalização da Vida é o tema do programa Caminhos da Reportagem, que vai ao ar neste domingo (30), às 22h, na TV Brasil.

De acordo com Sidarta Ribeiro, biólogo e neurocientista, “dormir, se alimentar e fazer exercícios são a base da saúde humana há 300 mil anos. Por que não seria agora?”.

O Caminhos da Reportagem do próximo domingo discute temas como a hipermedicalização, a automedicação e o uso do canabidiol para tratamento de doenças físicas e mentais. Para o neurocientista e professor da Universidade de Brasília Renato Malcher, “uma das grandes coisas a serem comemoradas sobre o uso da Cannabis é exatamente o que está causando mais resistência a ela: o fato de ela conseguir substituir uma quantidade enorme de remédios que trazem consigo muitos efeitos colaterais”.

Brasília (DF) - Caminhos da Reportagem -

Caminhos da Reportagem aborda temas como hipermedicalização, automedicação e uso do canabidiol para tratamento de doenças – TV Brasil

Luiz David Castiel, médico sanitarista, critica a indústria farmacêutica por estimular o consumo de remédios. “O papel da indústria farmacêutica é o papel que as indústrias têm, que é produzir determinados objetos para serem consumidos”.

Já Reginaldo Arcuri, presidente do Grupo FarmaBrasil, afirma que o objetivo da indústria farmacêutica é sempre avançar na cura e na estabilização das doenças. “O lucro, como qualquer atividade num sistema capitalista de livre iniciativa, é parte essencial, é necessário para a empresa pagar salários, impostos, manter a sua estrutura funcionando. É da lógica do sistema”, defende.

O programa trata ainda da hiperpatologização de casos de Transtorno do Espectro Autista e do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade e, ainda, da importância da medicação em determinadas situações. 

Exposição e livro revisitam obra de Hélio Oiticica, que teria 86 anos


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Encontrar e produzir a arte presente no cotidiano comum e nas ruas, integrada à vida na cidade, ligada ao corriqueiro visto com poeticidade. No olhar particular e revolucionário do artista plástico carioca Hélio Oiticica, que morreu com apenas 42 anos em 1980, instalações, pinturas e esculturas deveriam estar próximas aos cidadão comum e não apenas em ateliês ou museus. 

No mês que o artista completaria 86 anos (nasceu em 26 de julho de 1937), uma exposição no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, e um livro com uma coletânea de cartas reveladoras revisitam obras e pensamentos do artista, que continuam atuais, segundo especialistas em seu trabalho. 

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A exposição Delirium Ambulatorium, em cartaz no CCBB da capital, com acesso gratuito, reúne mais de 80 obras de diferentes fases da vida de Oiticica. O nome da exposição, segundo salienta o curador da mostra, o pesquisador pernambucano Moacir dos Anjos, alude a um termo que o artista usava para descrever que principal ativador do trabalho dele, era o contato com o mundo, o caminhar pela cidade. 

Brasília (DF) 23/07/2023 - Exposição no Centro Cultural do Banco do Brasil, do artista Hélio Oiticica, artista que revolucionou as artes visuais em todo o mundo. 
Foto: José Cruz/Agência Brasil

 Artista defendia que a arte está por toda parte – Foto José Cruz/Agência Brasil

“Esse delirar no caminho pelas ruas, pela cidade, no encontro com as coisas comuns da vida, as coisas do cotidiano seriam o estopim para fazer arte”, aponta o curador. Ele explica que a exposição busca ressaltar essa ideia que o artista repetiu na fase final da vida dele, em cartas com amigos, por exemplo. 

Motivação

“Era algo que realmente o motivava sair pra rua. A exposição é uma tentativa de um olhar retrospectivo, do começo até o final desse movimento”, explica Moacir dos Anjos. Ele contextualiza que a obra dele nos anos 1950 está ligada a uma tradição construtiva da arte brasileira, como uma distração geométrica. 

Brasília (DF) 23/07/2023 - Exposição no Centro Cultural do Banco do Brasil, do artista Hélio Oiticica, artista que revolucionou as artes visuais em todo o mundo. 
Foto: José Cruz/Agência Brasil

Hélio Oiticica revolucionou as artes visuais – Foto José Cruz/Agência Brasil

“Pouco a pouco, aquilo vai se fragmentando dentro desses trabalhos ainda como desenhos no papel e depois se transforma em objetos que passam a ocupar o espaço e serem penetráveis. As pessoas penetram nos trabalhos”, exemplifica. 

O que era pintura na parede se transforma em arte no espaço aberto. O pesquisador explica que os anos 1960 influenciam o artista, incluindo o contato com os músicos da Tropicália, com a cultura popular, no samba da Mangueira e as relações do movimento do corpo e da arquitetura.

“Uma certa ginga e improvisação fundamentais para entender que o corpo ganha autonomia e protagonismo”, aponta o curador.

Ele explica que, na visão de Oiticica, o artista passa a ser um propositor de situações para que as pessoas possam descobrir e viver com arte. “Ele quebra essas distinções entre artista e não artista, entre museu e rua”.

Moacir dos Anjos entende que, dentre tantas obras, uma das que ele sugere para que o público perceba a arte de Oiticica é a intitulada Grande Núcleo (1960), que está na galeria 3 do CCBB. “É uma obra com placas de madeira suspensas formando uma estrutura grande, amarela, laranja, em vários tons. É uma obra que os visitantes não devem deixar de ver”.

Brasília (DF) 23/07/2023 - Exposição no Centro Cultural do Banco do Brasil, do artista Hélio Oiticica, artista que revolucionou as artes visuais em todo o mundo. 
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Obra tem placas suspensas e está na galeria do Centro Cultural do Banco do Brasil – Foto: José Cruz/Agência Brasil

Cartas

Outro caminho para conhecer o pensamento de Hélio Oiticica é ler as correspondências com as quais ele se correspondia com amigos, outros artistas e familiares.O livro Hélio Oiticica: cartas 1962-1970 é resultado do trabalho de mais de quatro anos feito pela pesquisadora Tânia Rivera, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com Carlos Oiticica Filho, que foi o idealizador do projeto. Trata-se de obra de mais de 300 páginas .

“Desde muito jovem, ele já fazia cópias das cartas que ele escrevia e guardava. Então, a gente tem um material imenso que foi objeto de uma pesquisa muito aprofundada. É um primeiro volume. Nós vamos ter um segundo volume cobrindo a década de 1970 (previsto para o ano de 2025)”.

Na década de 1960, momento que mescla efervescência de pensamentos, produção, vida em Londres e reação à ditadura militar, as cartas descortinam o pensamento de um jovem que está à frente do seu tempo. 

As correspondências revelam, por exemplo, uma busca permanente por elaborar conceitos e compreender o momento artístico. Para Tânia Rivera, os textos são como crônicas da sua época. “As cartas, na minha opinião, devem ser consideradas parte da obra do artista. Uma obra que buscava a essência total entre arte e vida com uma intensidade extraordinária”. Para ela, esses textos são, às vezes, divertidos, e também profundos. Um mergulho no pensamento do jovem artista que morreu cedo demais.

A pesquisadora atenta para o fato da preocupação de uma dimensão coletiva da criação artística. “Ele exorta os colegas a uma ação conjunta. Especialmente, naquele momento, de 1969 (quando há o recrudescimento da violência do Estado e extinção das liberdades individuais), depois de saber que Gilberto Gil e Caetano Veloso estavam sendo presos por estarem com a Bandeira com a inscrição “seja marginal, seja herói”, criada por Hélio Oiticica.

A pesquisadora explica que, a partir disso, as cartas revelam como Oiticica passa, imediatamente, a organizar um evento que seria um ato político pela libertação de Caetano e Gil. “Ele reflete sobre o papel do artista na sociedade, especialmente em relação à política. Oiticica diz que seria possível um artista não se posicionar”. As palavras e as obras ficaram eternizadas.