Caio Souza lidera ginástica brasileira em etapa da Copa do Mundo


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A seleção brasileira de ginástica artística encerrou a etapa de Osijek (Croácia) da Copa do Mundo com seis medalhas, uma delas dourada. Destaque para o fluminense Caio Souza, que foi ao pódio quatro vezes, três delas nas finais deste domingo (11), sendo uma no topo, na barra fixa. No sábado (10), o ginasta de Volta Redonda (RJ) havia sido bronze nas barras paralelas.

Além dele, mais dois brasileiros conquistaram medalhas neste domingo. Na barra fixa, Arthur Nory levou a prata. Nas argolas, Arthur Zanetti também ficou com a segunda posição, na volta dele às competições internacionais após quase um ano, com Caio arrebatando o bronze.

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A primeira medalha brasileira neste domingo veio no salto, com Caio. O fluminense alcançou 14.683 de nota, desempenho ligeiramente inferior aos 14.725 da eliminatória (onde foi o melhor), mas suficiente para lhe garantir a prata. O armênio Artur Davtyan, bronze na Olimpíada de Tóquio (Japão) e atual campeão mundial, brilhou com 15.033, assegurando o ouro em Osijek. O cazaque Emil Akhmejanov, com 14.283, completou o pódio, pouco à frente do paulista Yuri Guimarães (14.233), que ficou em quarto.

Na barra fixa, Caio voltou a se destacar. Penúltimo a se apresentar, ele alcançou 14.300 de nota, superando Nory nos detalhes. O paulista, que tinha sido o melhor ginasta da eliminatória, obteve 14.166, mesma avaliação do croata Tin Srbic. O brasileiro, porém, levou a prata nos critérios de desempate, por ter feito uma execução melhor dos movimentos, apesar da série ter um grau de dificuldade inferior ao do rival, vice-campeão olímpico do aparelho em Tóquio.

Por fim, nas argolas, Caio alcançou uma nota 13.933, que o deixou provisoriamente na liderança do aparelho. Na sequência, Zanetti obteve um 14.533 e passou à frente do compatriota. O paulista, campeão olímpico do aparelho nos Jogos de Londres (Grã-Bretanha), em 2012, porém, teve a ponta tomada na penúltima apresentação. O armênio Artur Avetisyan recebeu 14.666 de avaliação e ficou com o ouro.

Rumo à Paris

As etapas da Copa do Mundo servem de preparação para o Mundial da Antuérpia (Bélgica), entre 30 de setembro e 8 de outubro. A competição servirá de classificação para as seleções masculinas e femininas irem à Olimpíada de Paris (França) no ano que vem. As equipes têm de ficar entre as nove melhores dos respectivos gêneros, sem contar as que já se garantiram nos Jogos pelo desempenho na edição anterior do campeonato, em Liverpool (Grã-Bretanha), no ano passado.

Tratamento precoce de cardiopatia congênita simples não deixa sequelas


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O Dia Nacional de Conscientização da Cardiopatia Congênita, uma anomalia na estrutura ou função do coração, é lembrado nesta segunda-feira (12) no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, 1% dos bebês que nascem no país tem alguma cardiopatia congênita. Isso significa cerca de 29 mil a 30 mil novos casos por ano. Na terça-feira (13), o Instituto Nacional de Cardiologia (INC) promove uma sessão de portas abertas para pacientes e familiares, com o objetivo de ajudar no entendimento de cada pessoa e esclarecer dúvidas sobre a doença.

A anomalia surge na gestação. “A criança nasce com o problema; vem da barriga da mãe e, ao longo da vida, vai lidar com a doença, no formato da complexidade do que é a doença na origem”, disse à Agência Brasil a coordenadora do Serviço de Cardiopatia Congênita no Adulto e Doenças da Aorta do INC, Maria Carolina Terra Cola,. A unidade é referência do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro no tratamento de crianças e adultos com cardiopatias congênitas.

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A doença pode ser mais ou menos complexa, explicou a médica. Quanto mais simples, maior é a chance de a criança ter a doença tratada logo, ou seja, na primeira ou segunda infância, e ficar sem nenhuma sequela, tendo só o acompanhamento cardiológico normal, disse Maria Carolina.

Quando a cardiopatia congênita é mais complexa, ou muito complexa, a criança, adolescente ou adulto vão acabar tendo que lidar com o problema a vida toda e, muitas vezes, voltar ao hospital para internações e intervenções, que podem ser cirurgias ou cateterismo. “E vivenciar isso a vida inteira, com maior ou menor grau de limitação, em relação às coisas simples da vida, como se exercitar, engravidar”, acrescentou.

Riscos

De acordo com a médica, os riscos específicos relacionados à cardiopatia congênita incluem infecção no coração (hemocardite) e necessidade de colocação de marca-passo. “A vida do paciente será de acordo com a complexidade da cardiopatia. Vai ser de acordo com as sequelas, os resíduos iniciais que a doença deixou na vida dele”. Muitas vezes, o jovem tem de colocar uma válvula no coração que, ao longo da vida, terá de ser trocada mais de uma vez, em períodos de dez anos.

As doenças mais simples podem até ser consideradas curadas na infância. O paciente vai ter acompanhamento médico, que pode ser feito pelo cardiologista. Já nas cardiopatias de média para alta complexidade, a gama de pacientes precisará ser assistida por um especialista. Isso sem contar questões da vida adulta, como trabalho, formação, estudo, possibilidade de engravidar, necessidade de esterilização devido ao risco alto de engravidar, risco de endocardite e necessidade de novas intervenções para pacientes mais complexos.

Maria Carolina informou que pessoas com cardiopatia congênita devem praticar atividade física, mas de acordo com suas possibilidades. ”Tem aqueles para os quais será liberada só a caminhada e outros que podem até ser liberados para esporte competitivos.”

As sequelas podem ocorrer na função cardíaca, na função de válvulas cardíacas, e também sob a forma de arritmia, hipertensão arterial pulmonar. As alterações residuais que ficam no paciente é que vão determinar o que ele pode fazer, qual é a mulher que poderá engravidar sem nenhum problema. A vida do jovem ou adulto jovem cardiopata congênito será norteada pela complexidade da doença em relação a esses fatores.

Segundo a médica, essas questões vão poder ser customizadas de acordo com a gravidade e com o que o paciente apresenta em termos de lesões residuais, de problemas cardiológicos decorrentes da cardiopatia congênita. Ela ressaltou que mesmo mulheres que já trocaram a válvula do coração, mas que tenham cardiopatia congênita de média complexidade, poderão engravidar. Já as pacientes que acabam evoluindo para insuficiência cardíaca, hipertensão arterial pulmonar, arritmias, terão a contraindicação, porque a gravidez se torna risco para sua vida.

Algumas situações de risco para engravidar podem ser resolvidas operando, destacou a médica do INC. Outras alterações, contudo, não podem ser resolvidas com cirurgia. “Para essas pacientes, a gente desaconselha a gravidez”. As crianças do sexo feminino com cardiopatia muito complexa devem ser conscientizadas ao longo da adolescência, antes até da entrada na vida adulta, sobre o risco que vão correr se engravidarem.

Estatísticas

A cardiopatia congênita pode ser transmitida da mãe ou do pai para o filho. Por isso, é importante em famílias em que a cardiopatia se repete, que o paciente saiba que podem transmiti-la aos filhos. Não é incomum encontrar famílias com várias alterações.

O número de adultos cardiopatas congênitos tem crescido continuamente. Um estudo de 2018 estimou que existam 50 milhões de adultos portadores de cardiopatia congênita no mundo. O Brasil acompanha a tendência mundial. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a incidência de cardiopatias congênitas varia entre 0,8% nos países com alta renda e 1,2% nos países com baixa renda – o valor médio de 1% de incidência é aceito para o Brasil e demais países da América Latina.

Nas duas últimas décadas, a mortalidade por cardiopatia congênita em crianças caiu quase três vezes, graças a avanços nas técnicas cirúrgicas e hemodinâmicas e nos diagnósticos cada vez mais precoces e precisos feitos, muitas vezes, em fetos no útero das mães. “Isso deu uma sobrevida maior aos pacientes. Eu tenho pacientes operados na década de 1970.” No início, eles eram atendidos, não por especialistas, mas pelo pediatra, e viviam menos.

Maria Carolina destacou que muitos cardiopatas congênitos enfrentam dificuldades de engajamento na vida profissional e até de acesso ao ensino básico, ao terceiro grau. Muitos também não se consideram capazes. “Essa é uma de nossas preocupações. Muitos pacientes com baixa complexidade nos abordam querendo laudo para o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), e nós explicamos que eles estão bem. A cardiopatia está curada, porque foi operado na infância, e as sequelas não são graves. O paciente pode estudar e trabalhar.”

A médica defendeu a necessidade de promover o desenvolvimento pessoal e profissional desses doentes, porque é melhor ser um indivíduo produtivo, que colabora com a sociedade e consigo mesmo, na medida em que amplia sua autoestima e a realização pessoal. Nos casos de mais alta complexidade, quando o paciente não tem condição de trabalhar, são necessários laudos para benefício do INSS, porque ele tem limitação natural.

Fora da curva

A médica Maria Carolina aponta o caso de Cintia Maia como “um ponto fora da curva”. Diagnosticada com a doença com um mês e 15 dias, Cintia Maria teve o primeiro atendimento ocorreu no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, fez a primeira cirurgia Hospital Quarto Centenário e continuou o tratamento no hospital da UFRJ.

Quando engravidou e teve problemas, Cintia foi encaminhada para o Instituto Nacional de Cardiologia. O filho dela, que está com 11 anos, tratou a cardiopatia congênita logo no início e hoje não tem problemas. Depois da gravidez, Cintia ficou debilitada, com muitas limitações, mas operou a válvula cardíaca e voltou a ter vida normal. “Estudo, trabalho, faço tudo.”

Ela admite que sente alguma fadiga ou cansaço, mas nada que a impeça de realizar suas atividades. Cintia faz acompanhamento anual no Instituto Nacional de Cardiologia, para avaliar a necessidade de troca da válvula. Ela é professora e neuropsicopedagoga.

Caminhos da Reportagem trata de arte e demarcação de terras indígenas


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A luta dos povos indígenas passa também pela demarcação de territórios no mundo das artes. O momento que eles estão vivendo é inédito na cultura brasileira, com grande número de exposições nos principais museus de arte do Brasil. Um dos mais importantes, o Museu de Arte de São Paulo (Masp), escolheu como centro de sua programação, para este ano, exposições e atividades relacionadas à cultura indígena.

10/06/2023 - Kássia Borges Karajá. Foto Aline Beckstein/Divulgação

Artista plástica Kássia Borges Karajá é uma das curadoras de exposição de arte indígena no Masp – Aline Beckstein/Divulgação

“Eu acho que é um ganho muito grande para a gente, para nós indígenas e para a sociedade não indígena também”, defende a artista plástica Kássia Borges Karajá. “Antigamente, a nossa arte ficava restrita aos museus etnográficos, como se a gente tivesse morrido, como se só existissem objetos para contar a história desse povo que morreu! Só que nem toda etnia foi extinta”, avalia a artista, que faz parte do trio de curadores indígenas convidados pelo Masp.

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No primeiro semestre deste ano, o museu dedicou espaço para duas grandes exposições de artistas plásticos indígenas: a do coletivo Mahku (Movimento dos Artistas Huni Kuin), que reúne representantes da maior etnia indígena do Acre, além da própria Kássia Borges Karajá, que entrou para o grupo em 2018. O Mahku foi criado dez anos atrás pelo indígena Ibã Huni Kuin que resgatou, através da pesquisa com seu pai, cantos xamânicos tradicionais do seu povo.

10/06/2023 - 10/06/2023 - A artista Macuxi Carmézia Emiliano é uma das pioneiras na pintura de telas. Foto Aline Beckstein/Divulgação.  Foto Aline Beckstein/Divulgação

Macuxi Carmézia Emiliano é uma das pioneiras na pintura de telas – Aline Beckstein/Divulgação

Outro destaque do Masp foi a individual da artista plástica Macuxi Carmézia Emiliano. Carmézia é considerada uma pioneira entre os indígenas e já pinta telas há mais de 30 anos. Entre os temas de sua obra, estão as pinturas sobre o mito Macuxi de criação do Monte Roraima.

Seguindo a mesma tendência de reconhecimento de artistas indígenas, a Pinacoteca de São Paulo está ampliando o seu acervo com a aquisição de obras de nomes como Denilson Baniwa e Jaider Esbell, que morreu em 2021.

A antropóloga Elsje Lagrou (imagem em destaque), que há mais de 30 anos pesquisa a cultura de povos originários da Amazônia, avalia a importância da arte como instrumento de valorização dos territórios indígenas e da própria floresta: “A ligação entre a arte indígena contemporânea e as lutas em defesa do meio ambiente é totalmente intrínseca. Todos esses artistas trabalham a partir dos seus territórios, seus territórios ancestrais, cosmológicos e de pertencimento”, disse.

10/06/2023 - O artista indígena Denilson  Baniwa trabalhando na Pinacoteca de SP. Foto Aline Beckstein/Divulgação

Artista Denilson Baniwa na Pinacoteca de São Paulo – Aline Beckstein/Divulgação

Elsje Lagrou também destacou o chamado “artivismo”, arte com ativismo, de indígenas como Jaider Esbell que denunciou, por meio de suas obras, o desmatamento e a pressão do agronegócio em Roraima, seu estado de origem. E do resgate promovido por ele de mitos indígenas como o Makunaimã, considerado pelos Macuxi como “grande criador e transformador”, mas que entrou para a literatura como Macunaíma, o Herói sem Nenhum Caráter, do modernista Mário de Andrade.

Na Pinacoteca de São Paulo, está em cartaz a primeira exposição individual em museu de Denilson Baniwa. O artista visual amazonense tem ainda uma trajetória reconhecida como curador e ativista, além de ser um dos fundadores da rádio indígena Yandê. Foi dele também a direção de arte da releitura crítica da ópera O Guarani, no Theatro Municipal de São Paulo, no mês passado.

“Eu visito vários tipos de museus no Brasil e sempre estou encontrando a produção de algum artista indígena. E a gente tem que lembrar que quatro anos atrás, isso não acontecia. Então, de quatro anos para cá, nós estamos ocupando uma série de espaços importantes”, avalia Denilson.

O episódio Arte Demarcada: o levante indígena nas artes do programa Caminhos da Reportagem, vai ao ar às 22h deste domingo (11), na TV Brasil. Clique aqui e saiba como sintonizar a emissora.

 

Pinheiros garante título sul-centro-americano de handebol feminino


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O Esporte Clube Pinheiros garantiu, no último sábado (10), o bicampeonato sul-centro-americano de handebol feminino, a principal competição do continente na modalidade. Na decisão, a equipe paulista, que sediou o torneio no Ginásio Poliesportivo Henrique Villaboim, em São Paulo, venceu o River Plate, da Argentina, por 29 a 26, na prorrogação.

Foi a terceira edição da competição, realizada pela primeira vez em 2019, em Concórdia, Santa Catarina, com o título conquistado pela equipe anfitriã. No ano passado, o torneio foi em Buenos Aires. O Pinheiros levantou a taça, então inédita, ao vencer outro time brasileiro na final, o Clube Português, de Recife.

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As pinheirenses chegaram à final deste ano com três vitórias e 94 gols marcados. Na primeira fase, que começou na última terça-feira (6), elas derrotaram o Leonas, do Chile, por 47 a 31 e o Scuola Italiana, do Uruguai, por 26 a 20. Nas semifinais, bateram o Clube Português por 21 a 15, na reedição da final da última Liga Nacional, também vencida pelas paulistas.

Já o River superou o Unimed Sorocaba por 29 a 23 e o Ovalle, do Chile, por 34 a 23 na fase inicial. Na partida que valeu lugar na final, as argentinas fizeram 30 a 17 no Nacional, de São José, Santa Catarina.

O Pinheiros foi para o intervalo com 3 gols de vantagem (13 a 10), mas viu o River tomar as rédeas da partida no segundo tempo, chegando a abrir 4 gols de frente. As brasileiras reagiram nos 7 últimos minutos, igualando o marcador em 24 a 24 nos instantes finais. Restando 20 segundos, a goleira Jéssica salvou o que seria o gol da vitória argentina, levando jogo à prorrogação.

No tempo extra, as paulistas voltaram à dianteira no placar. Jéssica brilhou novamente, salvando 1 chute de 7 metros (equivalente no handebol ao pênalti do futebol) e a equipe da casa, com 3 gols da central armadora Mayara, conseguiu administrar o resultado, garantindo o bicampeonato.

“Ninguém baixou a guarda. Estávamos 4 gols atrás faltando 7 minutos e é muito difícil reverter um placar do jeito que foi. É fundamental acreditar até o final, que dá. Foi o que elas fizeram e na prorrogação tínhamos certeza de que íamos continuar, porque estávamos em um crescente que seria difícil segurar”, destacou o técnico Alex Aprile, à assessoria de imprensa do Pinheiros.

O pódio feminino do Campeonato Sul-Centro-Americano foi completado pelo Clube Português, que derrotou o Nacional por 30 a 23, em um duelo 100% brasileiro, também disputado no sábado. Na edição masculina do torneio, que também foi realizada no Pinheiros, entre 30 de maio e 3 de junho, o título ficou com os argentinos do San Fernando, que superaram o Taubaté na final, por 35 a 33, na prorrogação.

Violência e custos limitam reportagens sobre a Amazônia


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Na Semana Mundial do Meio Ambiente, a Agência Brasil entrevistou o jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto. Nascido em Santarém, no Pará, há 73 anos, Lúcio conhece a Amazônia em profundidade. Na condição de colaborador de importantes veículos de imprensa, testemunhou algumas das principais transformações ocorridas na região ao longo das últimas quase seis décadas. Autor de vários livros e criador de jornais alternativos como o Jornal Pessoal  – quinzenário que publicou entre 1987 e 2019  –, Lúcio recebeu os mais importantes prêmios do jornalismo brasileiro, incluindo quatro Essos (ou Exxon Mobil, como passou a ser chamado em 2015) e o Vladimir Herzog. 

Também foi homenageado com o Prêmio Internacional Liberdade de Imprensa, concedido pelo Committee to Protect Journalists (CPJ). Ao conversar com a reportagem sobre os desafios de informar os cidadãos sobre o que se passa na Amazônia, o ex-professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) que ainda hoje mantém um blog de notícias e colabora com o site Amazônia Real, disse que está pessimista, sentimento agravado pelo fato de que, naquele mesmo dia (5), os brutais assassinatos do jornalista inglês Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira completavam um ano sem que os responsáveis tenham sido julgados.

“Hoje, a insegurança dos jornalistas é visível e estou certo de que, se fosse repetir o que fiz entre 1970 e 1990, não estaria vivo”.

Leia a seguir alguns dos principais trechos da conversa:

Agência Brasil – Como você reagiu à notícia dos assassinatos do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira, em junho de 2022?

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Lúcio Flávio – Em 1987, criei o Jornal Pessoal justamente porque um amigo, que era deputado pelo PCdoB [Partido Comunista do Brasil], foi assassinado. Disse para mim mesmo que ia contar a verdadeira história daquele assassinato, a qualquer custo. Passei três meses apurando os fatos e escrevi um texto apontando os nomes de todo mundo, do mandante ao executor do crime, passando pelo intermediário. Só que ninguém quis publicar. Então, acho que, quando um formador de opinião é assassinado, quando os direitos humanos são violentados, o crime tem que ser integralmente esclarecido. Não pode ficar impune. [Sob risco de] se repetir. Os caras que mataram o Dom lá no Vale do Javari demonstram ter a mesma mentalidade daqueles que assassinaram o [líder seringueiro e ambientalista] Chico Mendes [em 1988], em Xapuri (Acre). Para os assassinos do Chico Mendes, ele era só um chato que os impedia de derrubar árvores e de expandir o pasto. Então, eles o mataram, contando com impunidade. Matam bestamente, sem refletir, da mesma forma como o policial que matou [ o padre [João Bosco Penido] Burnier com um tiro na nuca, [em 1976], em uma delegacia [de Ribeirão Cascalheira, Mato Grosso.

Agência Brasil – Quais as causas dessa violência que o senhor diz ser “primitiva”? O que motiva tantas ameaças, agressões e assassinatos de líderes comunitários, defensores dos direitos humanos e jornalistas que atuam na Amazônia?

Lúcio Flávio – É uma violência estrutural. Sempre houve problemas e conflitos, mas acho que eles se intensificaram a partir do governo de Juscelino Kubitschek [1956/1961], quando o Estado decidiu integrar a região ao resto do país. Para isso, construiu as estradas Belém-Brasília [BR-153] e a BR-29 [atual BR-364], que liga Brasília a Rio Branco. Isso representou uma mudança brutal. Até então, a ocupação da região se restringia às áreas navegáveis próximas ao leito dos rios, uma faixa de algumas dezenas de quilômetros. As terras mais distantes, de difícil acesso, onde a maioria das populações indígenas estava concentrada, era praticamente ignorada. As estradas impuseram outro ritmo civilizatório, mudando o eixo de ocupação da região e favorecendo o maior processo de desmatamento da história da humanidade. Nunca tanta floresta tinha sido derrubada [em tão pouco tempo], com todos os efeitos ambientais, sociais e políticos resultantes. Ou seja, a violência regional não é produto de uma psicologia individual, de uma patologia individual. Ela é produto de uma filosofia de ocupação da região. O modelo de desenvolvimento da Amazônia é o caos: instaura-se o caos e deste decorrem todos os desdobramentos de que estamos falando.

Agência Brasil – E muitos dos argumentos apresentados para integrar a Amazônia, não necessariamente ao restante do país, mas sim a um projeto de desenvolvimento econômico, continuam sendo repetidos ainda hoje, não?

Lúcio Flávio – Sim. Por ser muito extensa; subpovoada e ameaçada pela cobiça externa, a Amazônia era considerada uma região problema. Suas próprias características naturais eram consideradas um entrave à expansão das frentes econômicas que avançavam de outras partes. Então, a diretriz era ocupar a Amazônia. Inclusive para afastar o risco de uma invasão estrangeira – esta conversa que vem de longo tempo e que, em 2002, motivou a criação do Sivam [Sistema de Vigilância da Amazônia]. Só que a integração exigia que se estabelecesse um valor [financeiro] para a terra. E, inicialmente, só tinha direito a expandir sua propriedade aquele [posseiro] que derrubasse a floresta, estabelecendo benfeitorias. Então, quem vinha de outras regiões para se estabelecer, via na floresta um estorvo e considerava que tinha que desmatar. Some-se a isso o fato de que a cultura local era desprezada, era considerada [expressão de] uma cultura pré-capitalista, primitiva, que não tinha escala e valor de mercado. Deu no que deu. Queriam que a região fosse tal e qual o resto do país? Mas o que é o Brasil [em termos ambientais] para além da Amazônia? É o país do desmatamento, que explorou os recursos naturais de outros biomas, como a Mata Atlântica, até quase a extinção. O [dramaturgo alemão] Bertold Brecht tem uma frase maravilhosa que ajuda a pensarmos nas causas dessa violência: “todos condenam um rio por ser violento, mas ninguém condena as margens que o comprimem”.

Agência Brasil – Nesse contexto, quais são os principais desafios para a cobertura jornalística na Amazônia?

Lúcio Flávio – Justamente o fato de a região ser extremamente violenta. Uma violência que pode se manifestar de forma explícita, como nos assassinatos, mas também de maneira sutil. Qualquer que seja o caso, ela é responsável por um estado de tensão permanente. O que exigiria uma forte presença do Estado, com uma atuação técnica e imparcial, o que não ocorre. Ao longo dos tempos, o Estado assumiu uma posição de franca hostilidade aos direitos – seja o direito das pessoas à natureza, seja o direito à vida. O fato se agravou enormemente no governo de Jair Bolsonaro, durante o qual houve, em [agosto de] 2019, o famigerado Dia do Fogo, quando [um grupo de] fazendeiros de Novo Progresso, no Pará, resolveu queimar a floresta. Nunca houve nada igual a isso.

Agência Brasil – O senhor disse que, historicamente, os saberes, a inteligência local, foram desprezados. Isso se aplica à prática jornalística, que muitos afirmam tratar a Amazônia de forma episódica e reducionista?

Lúcio Flávio – Tenho aqui comigo algumas edições de 1975 do jornal O Estado de São Paulo, para o qual trabalhei por 18 anos. Bem, em uma só semana, publicamos 12 páginas sobre a Amazônia. Na época, o jornal era uma fonte indispensável [de informações] para trabalhos acadêmicos e para o próprio governo. Se você ler muitas das matérias que o jornal publicou até o início dos anos 1980, vai ver que elas atacam o modelo de desenvolvimento econômico [que se buscava implantar na] região, defendem os posseiros e os índios. Ainda assim, em plena ditadura, militares de alta patente diziam que não deixariam que fossemos censurados por compreenderem que oferecíamos uma outra forma deles saberem mais sobre o que estava acontecendo na região. Hoje, a meu ver, as matérias contêm muito menos informação. Em parte porque a insegurança do jornalista é visível. Eu mesmo já fui ameaçado de morte, agredido, processado, mas estou certo de que se fosse repetir o que fiz entre 1970 e 1990, não estaria vivo. E há também os fatores econômicos. Para dar conta da realidade, o jornalista tem que viajar muito. E viajar pela Amazônia é caro. Em 1976, passei 12 dias viajando em um barco fretado pelo jornal. Eu frequentemente viajava para lugares onde só chegávamos em aviões fretados. Essa estrutura não existe mais no jornalismo. De forma geral, as empresas [de comunicação] não estão mais dispostas a gastar esse dinheiro. Então, recorrem a material de arquivo, a entrevistas, filmes. Só que, mesmo com as facilidades criadas pelas modernas ferramentas de comunicação, o que garante a força do jornalismo é estar no local dos fatos, na hora em que eles acontecem. Isso está cada vez mais difícil.

Agência Brasil – E a cobertura dos veículos de mídia regionais, que têm menos recursos e, em geral, estão ainda mais sujeitos às pressões e aos interesses locais? Os veículos regionais dão conta de informar a população da Amazônia sobre os desafios da região?

Lúcio Flávio – A pior cobertura sobre a Amazônia é a feita pelos veículos da própria Amazônia. Em primeiro lugar porque eles não querem [ou não têm como] gastar dinheiro. A maior parte das matérias sobre acontecimentos ocorridos no interior da Amazônia vem das grandes agências de notícias, ou seja, de fora, e não dos jornais locais. E há ainda aqueles veículos que estão comprometidos com governos e com outros anunciantes. Para mim, a imprensa regional simplesmente perdeu o tom da cobertura da Amazônia. Ao menos quando se trata dos temas que estamos discutindo aqui. Quem é o grande repórter de Amazônia? O Dom, por exemplo, era do [jornal britânico] The Guardian. Hoje, eu frequentemente leio no The New York Times [dos Estados Unidos} ou no El País [da Espanha] notícias que não saem nos veículos da Amazônia e até mesmo do Brasil.

Agência Brasil – O que fazer para reduzir esta violência que, como você disse, não é só explícita, se acirrou ao longo dos anos e afeta a todos, indistintamente, em maior ou menor grau?

Lúcio Flávio – Se os enclaves em Carajás, no Trombetas, em Canaã, seguirem produzindo bens intensivos aceitos no mercado internacional, os sucessivos governos não estarão nem aí para os conflitos episódicos, para a morte de índios e de jornalistas. A função da Amazônia seguirá sendo exportar produtos primários que gerem receitas. Mesmo com toda a receptividade mundial ao discurso em prol da proteção amazônica, vejo com extremo pessimismo o futuro da região. Trabalho na Amazônia há 57 anos. Antes eu viajava sozinho por áreas inóspitas, enfrentando dificuldades de todo tipo. Hoje, não faria mais isso. Porque, hoje, se um jornalista incomodar os senhores rurais da região, corre o risco de ser morto brutalmente, como o Dom Phillips, o Bruno Pereira e tantos outros.

Primeira menstruação é tema de filme inteiramente falado em guarani


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Um curta-metragem totalmente falado no idioma guarani, Um Tempo para Mim, está participando da Competição Latino-Americana 2023 – Mostra Ecofalante, em São Paulo, e será exibido na mostra competitiva do Festival Guarnicê de Cinema, em São Luís, no próximo dia 14. Dirigido e produzido por Paola Mallmann, o filme foi rodado na comunidade indígena Koenju, de São Miguel das Missões, Rio Grande do Sul.

O curta foi realizado por meio do Edital Audiovisual entre Fronteiras, promovido pelo Instituto Estadual de Cinema do Rio Grande do Sul, em parceria com o Instituto de Artes Audiovisuais do Governo da Província de Misiones, Argentina, que pedia temas relacionados às fronteiras dos dois países, onde a cultura guarani é muito presente.

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Paola Mallmann disse à Agência Brasil que se baseou em uma temática que vem ganhando visibilidade e que, durante muito tempo, ficou cercada de tabus e silenciada, porque abordava a menstruação, a saúde e o ciclo reprodutivo feminino, fase que se inicia com a menarca, nome científico dado à primeira menstruação.

Em 2019, Paola participou de uma formação sobre educação menstrual com a pesquisadora colombiana Carolina Ramirez, que abordava a temática da primeira menstruação e dos cuidados com o corpo nas escolas.

“Eu já vinha de pesquisa e engajamento com comunidades indígenas, em especial guaranis, e conhecia um pouco também relatos das mulheres guaranis sobre os cuidados com o corpo e práticas sociais nesse momento da vida”. Paola decidiu, então, que este seria o tema central de seu curta, a partir do contexto da cultura guarani, “com o propósito de trazer luz sobre esse tema que é sensível e, também, bastante político”.

Atores

O elenco do filme, com atores que não são profissionais, é liderado pelas jovens guaranis Juliana Almeida Timoteo e Clarice de Oliveira.

“Eu escolhi realizar este curta a partir da comunidade Tekoa Koenju, de São Miguel das Missões, onde existe a presença bastante forte de realizadores indígenas do audiovisual. A proposta foi fazer com essa comunidade, que está mais próxima da fronteira”. A assistente de direção foi a indígena Luz Duarte,que foi muito importante porque o curta foi rodado na língua guarani. “A presença dela foi fundamental para isso acontecer”, disse Paola, que teve colaboração de outros realizadores indígenas no roteiro e na escolha do elenco.

Com produção executiva de Beto Rodrigues, o curta conquistou o Kikito de melhor trilha musical na categoria de curtas-metragens brasileiros, na última edição do Festival de Gramado, em 2022, e venceu ainda o prêmio de melhor direção no 16º Curta Taquary, em Pernambuco, este ano. O filme tem 21 minutos de duração e é assinado pela Opará Cultural e Galo de Briga Filmes.

Segundo a diretora do filme, o mais impactante no trabalho foi a participação das meninas Juliana e Clarice, as protagonistas. Paola levou as duas para a primeira exibição do filme, no Festival de Gramado, depois de verem na escola, na aldeia, logo que o curta ficou pronto. “Foi muito emocionante. Elas se apropriando também do tema, falando sobre a experiência de estar atuando no cinema, no audiovisual. E o curta cumpriu muito o papel de promover esse debate, entre elas, principalmente, porque é um tema mais velado, e a discussão trouxe empoderamento para elas”.

A Juliana, em especial, gostou muito da ideia de continuar fazendo cinema. “Queria saber quando será o próximo [curta-metragem]”. A jovem participa dos grupos de cantos na aldeia e tem vontade de estar à frente das expressões culturais.

Longa-metragem

Paola está, no momento, finalizando o primeiro longa-metragem documental, intitulado Kunha Karai e as Narrativas da Terra. “Quando terminei meu mestrado em antropologia, tinha feito o primeiro curta, chamado Minha Longa Etapa, em três aldeias da região metropolitana de Porto Alegre. E, durante o processo do mestrado, tive uma aproximação muito grande com as mulheres indígenas”. Foi aí que ela constatou o protagonismo das mulheres indígenas na luta pela defesa do território, das culturas, da biodiversidade.

O novo filme foi sendo elaborado com base na experiência com algumas mulheres líderes guaranis, tanto interna, nas comunidades, quanto política, que inspiraram a diretora do curta Um Tempo para Mim. Ao acompanhar também as marchas das mulheres, em Brasília, ela incluiu participantes de diversas etnias. “Eu fui até o Acre filmando”. A previsão é lançar o filme no segundo semestre deste ano.

O longa-metragem foi o único projeto do Rio Grande do Sul selecionado em edital do Ministério da Cultura de 2018. “Ele ficou travado”, o que explica a demora para ter acesso aos recursos. A chamada visava estimular diretoras estreantes de longas metragens dentro da temática africana e indígena.

O título foi alterado, para correção, às 13h10