Hoje é Dia: Dia Mundial da População e do Rock marcam a semana

A semana entre os dias 9 e 15 de julho tem duas datas que chamam atenção de públicos específicos. No dia 11 de julho comemora-se o Dia Mundial da População, uma data sugerida pelo Conselho de Governadores do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP) da ONU. 

A data surgiu após o “Dia dos 5 Bilhões”, que ocorreu em 11 de julho de 1987, quando a população mundial alcançou a marca recorde de 5 bilhões de pessoas. O objetivo dessa data é promover a conscientização sobre questões relacionadas à população global, como planejamento familiar, saúde reprodutiva e direitos humanos. Programas como o Viva Maria e o Rádio Animada já falaram sobre a data:

Dois dias depois, em 13 de julho, é celebrado o Dia Mundial do Rock. A data, especial para os amantes do ritmo, é uma homenagem ao Live Aid, evento que ocorreu nessa mesma data em 1985. No Dia Mundial do Rock, fãs de todo o mundo celebram esse gênero musical tão influente e apreciado por diversas gerações. No ano passado, o Repórter Brasil relembrou a data. 

A semana também é lembrada por acontecimentos marcantes. No dia 11 de julho, um trágico acidente envolvendo um avião brasileiro em Paris completa 50 anos. A catástrofe resultou na morte de 122 pessoas, incluindo o cantor Agostinho dos Santos. A vida do cantor já foi retratada no Momento Três e do programa De Lá Pra Cá. 

O dia 12 de julho é marcado pelos 25 anos da derrota do Brasil na final da Copa do Mundo de 1998. Na ocasião, a seleção brasileira perdeu para a França por 3 a 0 em um jogo marcado pela atuação de gala de Zinedine Zidane e pela convulsão de Ronaldo Nazário antes da partida. 

Por outro lado, temos uma vitória a comemorar no dia 13. Na data, celebra-se o aniversário de 55 anos da vitória da brasileira Martha Vasconcellos no Miss Universo. Sua vitória foi motivo de orgulho para o país e inspirou gerações de mulheres brasileiras a perseguir seus sonhos e alcançar sucesso em concursos de beleza internacionais.

Confira a lista semanal do Hoje é Dia com datas, fatos históricos e feriados:

Julho de 2023
9

Nascimento do antropólogo teuto-americano Franz Boas (165 anos) – um dos pioneiros da antropologia moderna que tem sido chamado de “Pai da Antropologia Americana”

11

Nascimento do músico compositor e flautista fluminense Joaquim Antônio da Silva Callado (175 anos) – considerado um dos criadores do choro ou “o pai dos chorões”

Nascimento do antropólogo paulista Roberto Cardoso de Oliveira (95 anos)

Acidente com avião brasileiro mata 122 em Paris, entre os quais, o cantor Agostinho dos Santos e o político e ex-chefe da polícia de Vargas, Filinto Müller (50 anos)

Dia Mundial da População – comemoração sugerida pelo Conselho de Governadores do UNDP (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) da ONU após o “Dia dos 5 Bilhões” de 11 de julho de 1987, quando o planeta teria alcançado a então quantidade recorde de 5 bilhões de pessoas

12

Nascimento do médico e fisiologista francês Claude Bernard (210 anos) – conhecido fundamentalmente pela criação da medicina experimental/baseada em evidências

Morte do cantor e compositor paulista Agostinho dos Santos (50 anos)

Morte do músico de jazz estadunidense Bennett Lester Carter, o Benny Carter (20 anos) – uma das figuras principais do mundo do jazz, desde a década de 1930 até à década de 1990

Malala Yousafzai discursa na sede da ONU (10 anos) – foi a primeira aparição pública desde o atentado que sofreu de um extremista Talibã; é conhecida por seu ativismo pelo direito por educação das garotas no Paquistão, e, por isso, virou alvo dos extremistas. Foi a pessoa mais nova a ser laureada com um prémio Nobel

Brasil perde a final da Copa do Mundo 1998 para a França (25 anos)

Dia de Malala – ONU declara o Dia de Malala, em homenagem à ativista paquistanesa Malala Yousurfzai

13

Morte do cantor, violonista, clarinetista, tresero e compositor cubano Máximo Francisco Repilado Muñoz Telles, o Compay Segundo (20 anos) – participou ativamente do ambicioso projeto Buena Vista Social Club, um disco produzido por Ry Cooder, em 1996, em que se reuniram os grandes nomes da música cubana

Morte do cantor e compositor fluminense Cyro Monteiro (50 anos)

A brasileira Martha Vasconcellos é eleita Miss Universo (55 anos)

Dia Mundial do Rock – homenagem ao Live Aid, megaevento que aconteceu nesse dia em 1985

14

Nascimento do cineasta e dramaturgo sueco Ingmar Bergman (105 anos)

Criação da União de Negros pela Igualdade – UNEGRO (35 anos)

15

Nascimento do cantor e compositor maranhense Josias Sobrinho (70 anos)

Capoeira é reconhecida como Patrimônio Cultural Brasileiro (15 anos)

Dia Mundial das Habilidades dos Jovens – data reconhecida pela ONU

Mega-Sena acumula e próximo prêmio deve chegar a R$ 35 milhões


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Ninguém acertou as seis dezenas do Concurso 2.609 da Mega-Sena, sorteadas na noite deste sábado (8), em São Paulo. O prêmio para os ganhadores do próximo sorteio, marcado para a noite de quarta-feira (12), está estimado em R$ 35 milhões.

Os números sorteados ontem foram: 03, 21, 27, 32, 35 e 60.

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Os 50 apostadores que acertaram cinco dezenas vão receber R$ 61.254,15, cada um. Para os 4.420 acertadores da quadra, o prêmio é de R$ 989,88.

PrEP: tratamento preventivo é alternativa no combate ao HIV no Brasil


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A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou recentemente o registro do primeiro medicamento injetável para prevenção do HIV. O Apretude (cabotegravir) é um antirretroviral da classe dos inibidores da enzima integrase, que impede a inserção do DNA viral do HIV no DNA humano. Em outras palavras, é um mecanismo de ação que evita a replicação ou a reprodução do vírus e sua capacidade de infectar novas células.

O medicamento injetável passa a representar uma nova opção na profilaxia pré-exposição (PrEP) no Brasil, que consistia, até então, na tomada de comprimidos diários no intuito de permitir ao organismo estar preparado para enfrentar um possível contato com o HIV. A estratégia começou a ser oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no final de 2017 por meio da combinação de dois antirretrovirais, o tenofovir e a entricitabina.

Arte Agência BRasil para matéria sobre profilaxia pré-exposição. PREP

Arte/Agência Brasil

Entenda

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A PrEP, atualmente, é indicada para pessoas sexualmente ativas, não infectadas, mas com risco aumentado de exposição ao HIV, em diferentes contextos sociais. No Brasil, essas populações incluem profissionais do sexo, pessoas que usam drogas, gays, mulheres trans e travestis, além de casais sorodiscordantes (quando um parceiro é soropositivo e o outro não), como forma complementar de prevenção e para o planejamento reprodutivo.

Modalidades

No Brasil, existem duas modalidades de PrEP indicadas: diária: consiste na tomada diária dos comprimidos, de forma contínua, indicada para qualquer pessoa em situação de vulnerabilidade ao HIV; sob demanda: consiste na tomada dos medicamentos somente quando a pessoa tiver uma possível exposição de risco ao HIV. Deve ser utilizada com a tomada de dois comprimidos de duas a 24 horas antes da relação sexual, além de um comprimido 24 horas após a dose inicial de dois comprimidos e um novo comprimido 24 horas após a segunda dose.

A PrEP sob demanda é indicada para pessoas que tenham habitualmente relação sexual com frequência menor do que duas vezes por semana e que consigam planejar quando a relação sexual irá ocorrer.

Cuidados

De acordo com o Ministério da Saúde, a PrEP só tem efeito protetor se o medicamento for utilizado conforme a orientação de um profissional de saúde. Caso contrário, pode não haver concentração suficiente das substâncias ativas na corrente sanguínea do indivíduo para bloquear o vírus.

Além disso, todos os tipos de profilaxia pré-exposição só devem ser prescritos para indivíduos confirmados como HIV negativos. “Para a indicação do uso de qualquer terapia PrEP, deve-se excluir, clínica e laboratorialmente, o diagnóstico prévio de infecção pelo HIV”, reforçou a agência.

Quem pode usar

Ainda segundo a pasta, a PrEP é indicada para qualquer pessoa em situação de vulnerabilidade para o HIV. Algumas situações que podem indicar o uso são: o indivíduo frequentemente deixa de usar camisinha em suas relações sexuais (anais ou vaginais); o indivíduo faz uso repetido de profilaxia pós-exposição (PEP); o indivíduo apresenta histórico de episódios de infecções sexualmente transmissíveis (IST).

Também são candidatos à PrEP indivíduos inseridos em contextos de relações sexuais em troca de dinheiro, objetos de valor, drogas e moradia; indivíduos que praticam chemsex (sexo sob a influência de drogas psicoativas como metanfetaminas, GHB, cocaína e poppers) com a finalidade de melhorar e facilitar as experiências sexuais.

Acesso

A orientação do ministério é que interessados em acessar a PrEP procurem um serviço de saúde e informem-se para saber se há indicação. A lista dos serviços que ofertam a profilaxia pré-exposição pode ser acessada no site do Ministério da Saúde.

Proteção

Mulheres, pessoas trans ou não binárias designadas como sexo feminino ao nascer e qualquer pessoa em uso de hormônio a base de estradiol, que façam uso de PrEP oral diária, devem tomar o medicamento por pelo menos sete dias para atingir níveis de proteção ideais. Antes dos sete dias iniciais de introdução da PrEP, medidas adicionais de prevenção devem ser adotadas.

Homens, pessoas não binárias designadas como do sexo masculino ao nascer e travestis e mulheres transexuais – que não estejam em uso de hormônios à base de estradiol – e que usem PrEP, seja ela diária ou sob demanda, devem tomar uma dose de dois comprimidos de duas a 24 horas antes da relação sexual para alcançar níveis protetores do medicamento no organismo para relações sexuais anais.

“É fundamental a testagem regular, a investigação de sinais e sintomas para outras IST. A PrEP previne contra o HIV e permite o diagnóstico e tratamento de outras IST, interrompendo a cadeia de transmissão. O uso do preservativo previne do HIV e outras IST”, alerta o ministério.

Análise

Para o coordenador-geral da organização não governamental GTP+, Wladimir Cardoso Reis, a PrEP facilita a prevenção em meio a poucas opções. “Só tínhamos a camisinha como estratégia. Por isso, a PrEP está sendo bem acolhida. A gente tem percebido isso entre casais hetero e bi, travestis, transsexuais e gays”, disse, em entrevista à Agência Brasil.

A entidade, sediada em Recife, atua por uma educação e saúde preventiva, cidadã e democrática, transformando a realidade de pessoas que vivem com HIV. Em 20 anos de existência, a ONG atendeu mais de 42 mil pessoas.

Um dos principais projetos da GTP+, o Mercadores de Ilusões, capacita profissionais do sexo como agentes multiplicadores. Dentre os temas tratados nas ruas da capital pernambucana está justamente a PrEP.

Sobre o novo medicamento injetável aprovado pela Anvisa, o coordenador-geral avalia que o antirretroviral, assim que incorporado ao SUS, deve facilitar o acesso e a adesão das pessoas à PrEP, uma vez que não haverá, por exemplo, a necessidade de deslocamento diário para a tomada do remédio.

“Esse é um momento importante de a gente divulgar isso junto a populações com menos condições sociais e de ter serviços que atendam a essas populações e disponibilizem a PrEP. Afinal, você já vai estar protegido antes mesmo de ter a relação sexual. Facilita muito”.

“O país inteiro precisa estar mobilizado, isso precisa ser divulgado cada vez mais. Divulgar entre os pares, entre as pessoas. Falar de sexo ainda é algo muito conservador no nosso país. Quanto mais divulgada a PrEP, a implementação vai ser cada vez mais saudável e presente na vida sexual do povo brasileiro”, disse.

Morre, em São Paulo, a atriz Neusa Maria Faro

Conhecida por ter trabalhado em diversas novelas da TV Globo, a atriz Neusa Maria Faro morreu na noite de ontem (7), aos 78 anos, em São Paulo. A informação foi confirmada por amigos da artista. Ainda não há informações sobre as causas da morte, nem sobre o velório.

O último trabalho da artista na televisão foi na novela Êta Mundo Bom, de 2016. Mas Neusa atuou em diversas séries e novelas com Caras& Bocas, Morde& Assopra, Verdades Secretas e Chiquititas

“Perdemos, infelizmente, a querida Neusa Maria Faro. Super atriz. Interessantíssima. Da melhor qualidade. Mulher de teatro. Querida amiga. Um beijo, Neusa”, escreveu o dramaturgo Pedro Leão, que era amigo de longa data de Neusa.

“Semana difícil. Minha amada Neusa Maria Faro acabou de partir. Saiu direto do palco para o hospital e, mesmo assim, a contragosto. Tanto amor pelo teatro, tanta energia, tanta delicadeza na alma. Conheço Neusinha há muitos anos e sempre tivemos uma relação muito amorosa”, escreveu a fotógrafa e produtora cultural Priscila Prade.

Por meio de nota publicada em redes sociais, a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo lamentou a morte da atriz.

“Entre seus diversos papéis, Neusa ficou marcada pelo seu clássico bordão ‘Oswaldo, não fale assim com a mamãe’, em Alma Gêmea, na Globo. Além de atuar também em Morde e Assopra, Amor à Vida e Êta Mundo Bom, fez parte de diversas obras em teatros como Gaslight – Uma Relação Tóxica e, no cinema, interpretou Maria, em O Segredo de Davi, diz a nota.

“A Secretaria Municipal de Cultura [externa] os mais profundos sentimentos para todos os familiares, amigos e fãs. Sua trajetória estará marcada para sempre em nossa cultura e história teatral”, escreveu a Secretaria de Cultura.

Escola pública bilíngue é cenário de documentário sobre adolescência


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A passagem da adolescência para a vida adulta, o fim da escola, a descoberta dos primeiros relacionamentos, a dúvida sobre qual carreira seguir e a separação dos amigos. Todos esses conflitos comuns ao fim do Ensino Médio são contados em um cenário ao mesmo tempo familiar e inusitado em Salut, Mes Ami.e.s!, filme de Liliane Mutti que chegou à final da mostra competitiva do Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa.

É familiar por se passar em um brizolão do Rio de Janeiro, apelido dado pelos cariocas aos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), modelo de escola pública de tempo integral implementado pelo ex-governador Leonel Brizola e eternizado pelo projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer e pelo ideal pedagógico de Darcy Ribeiro. E é inusitado por esta ser a única escola pública bilíngue francófona da América Latina.

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O documentário observa a turma do terceiro ano do Ciep 449 Governador Leonel de Moura Brizola, em Niterói, na região metropolitana do Rio, e exalta a escola pública enquanto espaço de cuidado, socialização e encontro de classes, logo após o retorno das aulas presenciais com o abrandamento da pandemia de covid-19. As máscaras ainda estão no rosto dos estudantes e professores, demarcando o tempo em que a história é contada, mas as falas e planos trazem uma adolescência ao mesmo tempo atemporal e contemporânea.

Inspirada em High School (1968), de Frederick Wiseman, a equipe de produção chegava antes e saía depois dos estudantes do Ciep durante um mês, em abril de 2022, acompanhando o reencontro dessa turma com a escola, já com a despedida no horizonte logo adiante. Se em 1968 a adolescência retratada em seu rito de passagem tinha o espírito de mudança daquele tempo, a diretora do filme define a de nosso tempo como uma antítese.

“Essa juventude de 2022 é uma juventude minada. É uma juventude que pega um governo de trevas, que pega uma pandemia”, diz Liliane Mutti.

“Quando você é adolescente, você precisa conviver com o outro. Todo mundo precisa, mas o adolescente precisa construir sua identidade, se apaixonar. É uma transição da infância para a vida adulta, e foi muito cruel aquilo [pandemia] com eles. Essa juventude está muito destroçada, mas alguém precisa olhar para ela. Eu fiquei muito comovida”, revela.

Alegria

O encontro desses personagens que poderiam ser melancólicos nas salas e corredores da escola produz cenas de farta alegria, cantoria e coreografias. Os cochichos entre os jovens – captados sem muitos esclarecimentos – mostram uma adolescência que, para além de reivindicar mudanças comportamentais na sociedade, já as produzem, tratando de relações bissexuais e homossexuais com a mesma naturalidade que as heterossexuais.

“Quando eles falavam da questão de gênero, eu quis trazer para o filme, porque eles tinham a consciência de que estavam sendo filmados. Para mim, era muito claro que era o que eles escolheram contar. Essa juventude se mostra e tem consciência do poder disso. Eles não são vítimas, são muito autores. E era quase uma unanimidade como essa questão vinha”, conta a diretora.

“Eu acredito nessa educação que acontece também nos corredores. Acredito nessa educação viva, do cotidiano. Para mim, isso é um tema da escola e para a escola. E esse é um filme de escola. Eu quis mostrar essas questões que aparecem no individual, mas que, em um cruzamento, você vê algo que é geracional”, acrescenta.  

Filha de uma professora e diretora de escola pública, Liliane Mutti propõe com o filme um encantamento com uma educação não apenas pública e gratuita, mas comum, no sentido de atrair todas as classes sociais para o mesmo espaço. A oferta de ensino bilíngue fez com que o Ciep de Niterói reunisse não apenas pessoas que não podiam pagar mensalidades, mas alunos que deixaram escolas particulares em busca desse projeto de ensino.

“O projeto dos Cieps foi muito sabotado por uma questão de classe e por uma questão racial. Não se queria que essas pessoas tivessem direito, e isso é muito violento. O filme tem um otimismo porque mostra que, além de ser possível, eu escolhi colocar em evidência, porque a gente não pode perder o sonho da escola pública e também tem que tratá-lo como concreto. O desafio do Ministério da Educação é fazer uma escola pública que não seja um remendo, é fazer uma escola pública em que a classe média e a classe alta queiram estudar, de tão boa que ela é”, opina.

Educação pública

Mesmo assim, a diretora conta que o material das filmagens poderia ter gerado um filme oposto, denunciando a precarização da educação pública, que só não é pior pela atuação dos servidores que se dedicam a ela.

“Essa escola está de pé, do jeito que ela está resguardando a essência dos Cieps, graças às professoras e aos professores, graças ao diretor”, observa.

A participação do filme no Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa vai garantir sua exibição em salas de cinema do continente africano após a etapa competitiva realizada em Portugal. Depois desse momento, Liliane pensa em fazer um percurso em escolas públicas do Brasil, levando o filme a seu verdadeiro público-alvo: os adolescentes.

“A intenção do filme é o encontro. Então, onde isso pode se dar? Em sessões em escolas, onde os jovens estão. Estou pensando em uma circulação não convencional com esse filme. Vou pensar em como fazer chegar nas escolas. De repente, se o ministro ver, vai me ajudar a pensar em como chegar nas escolas”,  finaliza.

SP registra aumento de intolerância religiosa em 2023


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No primeiro trimestre deste ano, a polícia civil de São Paulo registrou 181 casos de intolerância religiosa em todo o estado, o que pode passar longe da quantidade real, já que muitas vítimas preferem não recorrer às autoridades para prestar queixa.

O total representa 87,4% das ocorrências reportadas entre janeiro de 2019 e março de 2023, demonstrando que houve uma alta significativa ao longo dos anos, e sinalizando que as pessoas podem estar tendo mais estímulo para comunicar violências.

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No relatório com os números, obtidos pela Agência Brasil pela Lei de Acesso à Informação (LAI), é possível identificar que os casos de intolerância religiosa vêm em contextos de confronto físico, tipificados como “vias de fato”, ameaças, injúria, difamação, lesão corporal, dano, ultraje a culto e impedimento ou perturbação de ato a ele relativo, praticar a discriminação e até mesmo violência doméstica. Por vezes, há mais de um desses crimes indicados no boletim de ocorrência, e a reportagem optou por contabilizar como um mesmo caso.

Em duas ocorrências, as vítimas que deram parte na polícia eram adolescentes. Ambos foram ameaçados. Há ainda um caso relacionado a uma tentativa de suicídio motivada por intolerância religiosa, em Campo Belo, o que evidencia o peso que as tentativas de se doutrinar e converter alguém podem ter. Várias ocorrências aconteceram no meio da rua.

Um dos locais que sofreram ataque, em março deste ano, é o terreiro de candomblé Egbé Odé Àkuerãn, que completou 12 anos de existência e fica no bairro Jardim São José, em Cajati, município de 28 mil habitantes, a cerca de 230 quilômetros da capital paulista. No boletim de ocorrência, o que ficou documentado, com citação do artigo 163 do Código Penal, foi o dano que o agressor, um vizinho do terreiro, causou à estrutura física, ao jogar um tijolo sobre o telhado local.

Lei do silêncio

Conforme relata o babalorixá que comanda o terreiro, Eric Ty Odé, de 27 anos, esse mesmo vizinho ganhou o imóvel onde mora do próprio terreiro e tem uma esposa evangélica. Segundo o líder candomblecista, em respeito à lei de silêncio, o terreiro funciona, no máximo, até as 22h30, e que o homem nem sempre demonstrou desagrado diante dos rituais realizados, o que começou apenas recentemente. “Só não machucou as pessoas embaixo porque o tijolo ficou preso no forro”, observa o líder do terreiro.

Essa não era a primeira vez que o vizinho os afrontou. A polícia, inclusive, já havia sido acionada anteriormente, mas os boletins de ocorrência não adiantaram. Além disso, o vizinho praticava o ataque e entrava correndo em casa, o que dificultava a ação dos agentes, e chegou a intimidar os frequentadores, segundo o babalorixá.

“Até que perdemos a paciência e abrimos um processo contra ele, por danos morais e danos patrimoniais, que está correndo na justiça. Foram registrados seis boletins de ocorrência. Ele ameaçava as pessoas que iam ao terreiro, ficava armado na rua, andando para lá e para cá, chamando os integrantes da casa para ir lá conversar”, acrescenta.

Medo e perseguição

Vanessa Alves Vieira, coordenadora do Núcleo de Diversidade e Igualdade Racial da Defensoria Pública de São Paulo, afirma que, de fato, muitos líderes de terreiro não denunciam os primeiros episódios de violência. Por detrás do medo de se oficializar a queixa, há também a desconfiança da postura da polícia, já que, conforme salienta a defensora pública, “há, às vezes, uma abordagem mais violenta, mais agressiva”.

Ela ressalta que, embora o órgão não disponha de estudos que comprovem a hesitação, os servidores que fazem esse tipo de atendimento a identificam nas falas dos denunciantes.

“Às vezes, as pessoas demoram para denunciar por temor, por desconhecimento dos caminhos jurídicos possíveis e também por não acreditar no sistema de justiça para lidar com essas questões, que também têm um fascismo institucional e estrutural que o permeia. Muitas vezes, há esse receio sobre quais serão esses desdobramentos, se vai ter consequência ou não”, diz ela, para quem o caso da demolição do terreiro de candomblé da yalorixá Odecidarewa Mãe Zana, em Carapicuíba, em dezembro de 2022, é uma história que ilustra o desrespeito e o apagamento que atingem as religiões de matriz africana.

O docente da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador Alexandre Marcussi esclarece que, quando o subtexto dos ataques não é propriamente ser contra uma religião que não pertence à linha cristã, e sim o racismo.

“Não é porque não são cristãos que os terreiros de candomblé, umbanda e matriz afro são constantemente atacados no Brasil. No Brasil, nós não temos intolerância religiosa significativa ou ataques contra praticantes do budismo, por exemplo, que também não são cristãos, mas não sofrem esse tipo de tratamento [de hostilidade]. Não é exatamente o fator religioso que está por trás. As religiões como umbanda e candomblé são atacadas porque estão historicamente associadas à África e à população negra. Por isso que a gente fala nesses casos, não apenas em intolerância religiosa, mas em um racismo religioso, porque a motivação é racial, de preconceito racial”, diz Marcussi.

Ele explica que, com o fim da Segunda Guerra Mundial, os ideais de inferioridade racial, que exaltavam os brancos, deixaram de ser aceitos e, com isso, deslocou-se o racismo de um campo para o outro. Assim, o racismo assumiu apenas uma nova roupagem. Como afirma o professor da UFMG, o que era um repúdio por questões biológicas, como a cor da pele, se transforma em um repúdio cultural.

Marcussi ainda destaca que a relação entre as religiões de matriz africana e a sociedade brasileira sempre foi conflituosa. “Elas eram proibidas na época do Brasil colonial, foram permitidas durante o império, mas tratadas sempre de maneira inferiorizada e foram enquadradas criminalmente no início do período republicano, no final do século XIX, início do século XX. Muitas dessas práticas eram criminalizadas, alegando-se que eram formas de curandeirismo, charlatanismo, etc. A relação da sociedade e do Estado brasileiro com essas religiões sempre foi muito conflituosa”, afirma o docente, cuja produção acadêmica orbita em torno de temas como o pensamento social africano, Brasil colonial e religiões afro-brasileiras.

Vida de sacrifícios

Eric Ty Odé recebeu, há pouco tempo, o título de Doutor Honoris Causa por sua contribuição à sociedade, em virtude dos conhecimentos sobre religiões de matriz africana. Casado com uma mulher que exerce a função de yakekerê (ou mãe pequena) do terreiro, figura que o auxilia nas tarefas, ele diz ter consciência de que ser babalorixá significa abdicar de, basicamente, todos seus planos pessoais, a fim de se dedicar exclusivamente ao funcionamento do terreiro.

“Vou te falar a realidade: a gente abdica da vida da gente para poder cuidar das pessoas e do orixá. A minha história começa aos 13 anos de idade, quando fui visitar um terreiro de umbanda, que era esse do meu avô. Eu nunca tinha ido. Então, achava aquilo fantástico. Ele tocava às sextas-feiras, pessoal de umbanda tem mania de tocar em dia de sexta. Ficavam na rua eu e meus amigos. A gente ficava ouvindo o barulho dos atabaques. Muitas vezes, a gente via meu avô passando, incorporado, pela garagem. E a gente falava…nossa, que legal, aquela coisa satânica, como o povo diz. E eu falei, um dia eu vou para ver isso, como é falar com o diabo. Porque a sociedade implanta na vida da gente que o terreiro é coisa do diabo”, relata.

O terreiro Egbé Odé Àkuerãn começou, conta Eric Ty Odé, a receber as pessoas em um banheiro. Até chegar ao estágio em que está hoje, de um barracão, levou certo tempo e uma dose a mais de fé. Já chegou a reunir filhos de santo debaixo de um pé de manga, que era onde dava, na época.

Filho de Iansã e Oxóssi, o babalorixá afirma que nunca teve empecilhos com autoridades locais para abrir e registrar formalmente o terreiro, o primeiro de candomblé da cidade onde vive e ao qual vão autoridades da cidade, que apoiam as ações sociais que articula. Contudo, ele comenta que demorou para que os responsáveis pela regularização do local compreendessem que estaria sujeito às mesmas regras de templos ou igrejas de outras vertentes.

“Como é o primeiro, não sabiam como colocar nos documentos. Eu falei, não, a documentação é como se fosse de uma igreja, um templo religioso, normal. ‘E a gente vai precisar cobrar imposto?’. Eu disse, não, isso é tudo conforme um templo religioso de qualquer igreja. Falaram, tá bom, a gente já conseguiu entender”, lembra ele, que iniciou as atividades estando à frente de um terreiro de umbanda, religião de seu avô, que teve o seu próprio em Carapicuíba, interior de São Paulo, por 52 anos.

Eric Ty Odé recorda-se de sua primeira gira, que provocou encantamento com a umbanda. “Ali eu achei o meu lugar, porque eu fui a várias igrejas evangélicas e nunca me encontrava. Comecei a frequentar a umbanda. Com um ano, o meu avô incorporava uma entidade chamada Zé Pelintra e o Zé Pelintra disse, olha, meu filho, não tem mais muito tempo de vida aqui nessa terra e você vai cuidar disso aqui para ele. Você já pode começar isso agora. E eu encarei aquilo como um desafio, e eu adoro desafios. Comecei. Auxiliava, perguntava, onde põe essa vela, essa bebida? Como vai ser? Como não vai ser? Me ensina a abrir e fechar trabalho? Depois, eu conheci o candomblé, depois de uma visita que eu fiz. Aí, eu vi que a umbanda me completava 80% e o candomblé, 100%”, afirma.

“O orixá determinou que a gente deveria se mudar da cidade de Carapicuíba para Cajati. Um desafio. Ele falou que seria aqui que eu iria construir meu nome, a minha história. Cheguei aqui, não tinha terreiro, nada. O único pai de santo da cidade”, adiciona.

Contribuição ao racismo

Obter a papelada para assegurar o funcionamento dos terreiros é um dos principais obstáculos impostos por quem os marginaliza ou tenta marginalizá-los, ao mesmo tempo que se deixa de cobrar alvará de igrejas católicas e evangélicas, alerta o presidente do Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro), Hédio Silva Júnior.

Ele cita, como exemplo, um caso recente que atendeu, no interior de Minas Gerais, em que a prefeitura proibiu o terreiro de umbanda de realizar rituais para Exu, orixá muito associado ao diabo, por quem desconhece as religiões de matriz africana e que busca desqualificá-las.

Ele afirma, ainda, que “a destruição do outro” sempre existiu no âmbito das religiões de matriz africana no Brasil, e que, à medida em que elas avançam e reivindicam legitimidade, há reações. Realmente, quanto mais [avançam], ainda que em um nível de organização, de defesa, de afirmação de direito incipiente, há uma contrapartida, uma resposta a isso. Agora, eu diria que, na verdade, o problema fulcral é que a intolerância religiosa no Brasil cresce absurdamente, e o que impressiona é que é envernizada por uma aura de naturalidade. Essa é que é a questão central”, pondera.

Como estratégia de enfrentamento ao racismo religioso, muitas lideranças religiosas acabam adotando nomes como “casa espírita” para, de certa forma, disfarçar a natureza dos rituais que ali são realizados, pois quem procura na internet, por exemplo, pode achar que se trata de uma casa ligada ao espiritismo kardecista. Nem mesmo isso funciona, em alguns casos, para que os terreiros se protejam dos ataques.

Cajati (SP) – Intolerância Religiosa - Terreiro antigo, menor - Terreiro de candomblé Egbé Odé Àkuerãn, do município de Cajati. Foto: Eric Ty Odé

Terreiro de candomblé Egbé Odé Àkuerãn funciona na cidade de Cajati. FotoEric Ty Odé

Há diversos modos de perseguição, que podem partir das organizações e o Estado, fazendo com que o racismo institucionalizado também ganhe forma. “A intolerância religiosa não distingue nem por cor, nem por segmento religioso, é todo mundo macumbeiro. Vejo terreiros localizados em área rural, com vizinhos a uma distância significativa, de 100, 200, 300 metros, havia até com 400 metros de distância da chácara e o cara vai reclamar”, diz Hédio.

“Primeiro, a instrumentalização do Estado, e aí isso se aplica a conselho tutelar. A gente teve casos de grande repercussão, de pais que perdem a guarda de filhos porque são da umbanda e do candomblé. Você tem vizinho que aciona a polícia, a prefeitura, agente fiscal e se vale, pretende valer da legislação. E aí eu sempre digo, as religiões afro-brasileiras têm que levar em consideração esse aspecto, que a lei é aplicada com muito mais rigor, e aí você tem que considerar que o país é racista”, declara.

Hédio acrescenta que “há um aparelhamento da máquina pública preocupante, porque corrói a democracia, e há, certamente, uma aplicação seletiva dessa legislação. Essa legislação tende a ser, não por coincidência, mais rigorosa com os templos de religião afro-brasileira, isso é verdade”, completa.

Para o presidente do Idafro, “a demonização é exclusivamente direcionada às religiões afro-brasileiras”. “E o problema é que a violência simbólica, a violência verbal, da palavra, ela incentiva a violência física”, argumenta.

A Agência Brasil pediu posicionamento da Secretaria da Segurança Pública sobre qual a postura que os policiais devem assumir ao atender um chamado de intolerância religiosa, mas não teve retorno até o fechamento desta matéria.