PF prende miliciano confundido com médico executado no Rio de Janeiro


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A Polícia Federal (PF) prendeu, nesta terça-feira (31) Taillon Barbosa e seu pai Dalmir Barbosa. Investigações apontam que eles comandam a milícia que atua em Rio das Pedras, na zona oeste do Rio de Janeiro.

As prisões ocorrem menos de um mês após três médicos serem executados por traficantes na Barra da Tijuca. A principal linha de investigação do crime sugere que os assassinos confundiram uma das vítimas, Perseu Ribeiro Almeida, com Taillon Barbosa. No episódio, também morreram Marcos de Andrade Corsato e Diego Ralf Bomfim, irmão da deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP).

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O crime ocorreu na madrugada do dia 5 de outubro, em um quiosque na Avenida Lúcio Costa, na Barra da Tijuca. Os três médicos atuavam fora do estado do Rio de Janeiro e estavam na cidade para participar de um congresso internacional de cirurgia ortopédica. O quiosque onde eles foram assassinados fica próximo ao hotel onde era realizado o evento.

O momento do ataque foi registrado por câmeras de segurança. As imagens mostram quatro homens armados descendo de um carro e efetuando os disparos. Horas após o crime, quatro corpos foram encontrados mortos dentro de dois veículos estacionados em diferentes localidades da zona oeste. Existe a suspeita de que os assassinos tenham sido mortos pelo próprio tráfico, após terem executado os médicos por engano. Por determinação do Ministério da Justiça e Segurança Pública, a PF atua na investigação do caso.

Taillon e seu pai foram presos na Barra da Tijuca, onde também foram cumpridos dois mandados de busca e apreensão nas suas residências. “Líder de milícia. Foi condenado a 8 anos e 4 meses. Com 2 anos e 3 meses já estava em casa. O médico foi confundido com ele. Parabéns à Polícia Federal. Investigação conduzida com inteligência e planejamento, nenhum tiro, nenhum efeito colateral”, escreveu em suas redes sociais o secretário-executivo do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Cappelli.

A ação foi realizada em conjunto com o Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). “Um dos alvos foi preso na Avenida Abelardo Bueno, no momento em que saía de um prédio comercial acompanhado de três homens armados que faziam a sua segurança: dois policiais militares da ativa e um militar do Exército, da reserva. Os três foram presos em flagrante”, informou a PF em nota.

Condenação

Taillon havia sido preso em dezembro de 2020 e acabou condenado em junho de 2022 em processo movido pelo MPRJ. Na denúncia, ele foi apontado como responsável pela exploração ilegal do transporte alternativo com vans e mototáxi e de serviços básicos como oferta de água, gás e televisão a cabo. Outros crimes também foram listados: cobrança de “taxas de segurança” de comerciantes e moradores, promoção de invasão e grilagem de terras e construção imobiliária clandestina.

Apesar da condenação a oito anos e quatro meses de prisão, em março desse ano um juiz autorizou a prisão domiciliar. No mês passado, houve permissão para que ele pudesse sair de casa durante o dia.

O pai de Taillon, Dalmir, também já esteve preso anteriormente. Ex-policial militar, ele foi expulso da corporação após seu nome figurar no relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instaurada em 2008 pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para investigar as milícias.

Receita paga nesta terça-feira lote residual do IRPF


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O crédito do lote residual de restituição do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) de outubro será feito nesta terça-feira (31), na conta bancária informada na Declaração de Imposto de Renda, de forma direta ou por indicação de chave PIX.

O pagamento é para 354.509 contribuintes, no valor total de R$ 643.259.756,29. A informação é da Receita Federal. Se, por algum motivo, o crédito não for feito, como no caso de conta informada desativada, os valores ficarão disponíveis para resgate por até 1 ano no Banco do Brasil.

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Nesse caso, o cidadão pode reagendar o crédito dos valores pelo Portal BB ou ligando para a Central de Relacionamento BB por meio dos telefones 4004-0001 (capitais), 0800-729-0001 (demais localidades) e 0800-729-0088 (telefone especial exclusivo para deficientes auditivos).

Para saber se a restituição está disponível, o contribuinte deve acessar a página do órgão na internet, clicar em Meu Imposto de Renda e, em seguida, em Consultar a Restituição.

Do valor total, R$ 427.280.878,46 referem-se ao quantitativo de contribuintes que têm prioridade, sendo 6.106 contribuintes idosos acima de 80 anos de idade; 54.438 contribuintes entre 60 e 79 anos; 6.491 contribuintes com alguma deficiência física ou mental ou moléstia grave; 16.874 contribuintes cuja maior fonte de renda seja o magistério e, por fim, 119.040 contribuintes que não têm prioridade legal, mas que receberam prioridade por terem utilizado a declaração pré-preenchida ou optado por receber a restituição via PIX. Foram contemplados ainda 151.560 contribuintes não prioritários.

Caso o contribuinte não retire o valor de sua restituição no prazo de 1 ano, deverá requerê-lo pelo Portal e-CAC, disponível no site da Receita Federal, acessando o menu Declarações e Demonstrativos Meu Imposto de Renda e clicando em “Solicitar restituição não resgatada na rede bancária”.

Entenda

O cronograma de lotes regulares do IRPF 2023 já foi cumprido, com o pagamento do quinto e último lote realizado em setembro de 2023. Por outro lado, os lotes residuais de restituição são pagos após o término dos lotes regulares e destinam-se a restituições que foram processadas posteriormente, devido a retificações ou outras correções na declaração.

Corais podem evitar R$ 160 bilhões em danos ao litoral do Nordeste

As franjas de recifes de corais que atraem turistas para a costa do Nordeste brasileiro também funcionam como importantes barreiras contra a ação do mar em muitas cidades da região.

Um estudo inédito, realizado pela Fundação Grupo Boticário, mostra que essas formações naturais impedem prejuízos de até R$ 160 bilhões na infraestrutura urbana, reduzindo a força e a altura das ondas que chegam ao litoral.

O valor foi calculado usando como base o potencial prejuízo que ressacas e tempestades poderiam causar a estruturas como prédios, casas, indústrias, portos, rodovias, ruas e calçadas, por exemplo, caso não houvesse recifes de corais para amortecer as ondas mais fortes.

Quatro cidades foram usadas como parâmetro para o cálculo (Recife e Ipojuca, em Pernambuco; e Maragogi e São Miguel dos Milagres, em Alagoas). Os valores encontrados nessas cidades foram depois extrapolados para outros municípios que também recebem a proteção dos recifes.

Já as cidades costeiras não protegidas por recifes de corais como Santos ou Rio de Janeiro, por exemplo, enfrentam destruição de estruturas da orla quando se veem afetadas por ressacas mais fortes.

Turismo

Tamandaré (PE), 25/10/2023 - A bióloga Janaína Bumbeer, doutora em Ecologia e Conservação Marinha, mergulha no recife Pirambu, na APA Costa dos Corais. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A bióloga Janaína Bumbeer, doutora em Ecologia e Conservação Marinha, mergulha no recife Pirambu, em Tamandaré (PE) – Fernando Frazão/Agência Brasil

“Já é conhecido que os recifes de corais prestam diversos serviços, entre eles a proteção costeira e o turismo. O que nós trouxemos foram valores, em reais. Todo esse patrimônio, seja cultural, público ou particular, está sendo protegido diariamente pelos recifes de coral”, explica a bióloga marinha Janaína Bumbeer, gerente de projetos da Fundação Boticário.

Além de evitar danos bilionários, os 170 quilômetros quadrados (km²) de franjas de recifes de coral que existem no Nordeste brasileiro também podem gerar, anualmente, R$ 7 bilhões em receitas, com atividades de turismo como mergulhos e passeios de barco.

O estudo considerou a receita gerada por essas franjas em Maragogi, São Miguel dos Milagres, Ipojuca (onde fica Porto de Galinhas), Caravelas (BA) – onde fica o arquipélago de Abrolhos – e Fernando de Noronha (PE). Esses destinos têm os recifes entre seus principais atrativos.

A partir daí, o estudo também fez extrapolações para municípios com potencial para explorar turisticamente essas formações costeiras, mas que ainda não o fazem.

Corais

Maragogi é um famoso destino da costa Nordeste brasileira devido às “piscinas naturais” que rendem lindas fotos para as redes sociais e encantam turistas de todo o país. O que as pessoas chamam de piscinas naturais, no entanto, são áreas do mar abrigadas da força das ondas e das correntezas graças aos recifes.

Essas formações que parecem rochas são, na verdade, esqueletos de corais, animais da classe Anthozoa (a mesma das anêmonas), que têm seu corpo semelhante a gelatinas, mas que formam exoesqueletos (esqueletos fora do corpo, assim como os insetos) a partir do carbonato de cálcio.

Acredita-se que essa forma de vida animal tenha surgido entre 400 e 500 milhões de anos atrás. Sua existência, porém, está ameaçada em todo o planeta, principalmente devido às mudanças climáticas, que superaquecem as águas dos oceanos e matam os corais, e também devido a fatores como poluição, alterações provocadas pelo homem, espécies invasoras, turismo desordenado e pesca predatória.

Tamandaré (PE), 25/10/2023 - Coral Montastraea cavernosa no recife Pirambu, na APA Costa dos Corais. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Recife de corais Pirambu, em Tamandaré (PE) – Fernando Frazão/Agência Brasil

Os corais mantêm uma simbiose, ou seja, uma associação de benefício mútuo, com as algas zooxantelas, que dão cor aos animais marinhos e fornecem grande parte dos nutrientes necessários para esses seres.

Quando os corais estão estressados, no entanto, acabam expulsando as algas, em um fenômeno conhecido como “branqueamento”, que enfraquece os animais e provoca sua morte. Isso afeta todo o ecossistema, já que várias formas de vida usam os recifes para se alimentar, se reproduzir e se abrigar.

Os corais ocupam cerca de 0,1% da superfície dos mares e oceanos, mas concentram 25% da biodiversidade marinha. Segundo o Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (Unep), estima-se que de 25% a 50% dos recifes de corais do mundo já foram destruídos e, do restante, 60% estariam ameaçados.

“Os corais são filtradores e dependem da qualidade da água. Além disso, o fato de estarmos ocupando os espaços onde havia os recifes de coral, aumentando a sedimentação, jogando a areia por cima [dos recifes], mudando a dinâmica da praia, que é muito delicada, isso tudo afeta os corais na sua sobrevivência”, explica Janaína Bumbeer.

Ameaças

Tamandaré (PE), 25/10/2023 - O oceanógrafo Mauro Maida, professor e pesquisador da UFPE, no recife Pirambu, na APA Costa dos Corais. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O oceanógrafo Mauro Maida, professor e pesquisador da UFPE, no recife Pirambu, na APA Costa dos Corais – Fernando Frazão/Agência Brasil

A reportagem da Agência Brasil visitou o litoral de Pernambuco entre os dias 24 e 26 de outubro e verificou algumas das ameaças, como turistas pisoteando recifes e lotando as piscinas naturais, lixo sendo deixado por esses turistas e flutuando em meio aos corais, construções polêmicas à beira-mar e água suja fluindo de rios para o mar.

“Na Praia dos Carneiros [em Tamandaré], derrubaram todas as restingas e construíram um monte de prédio”, conta Mauro Maida, professor do Departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Segundo ele, os corais têm uma taxa de crescimento muito lenta, alguns milímetros por ano, o que faz com que sejam necessárias décadas para se ter uma colônia de tamanho grande.

“Naturalmente ocorre a erosão dos recifes. O recife é um balanço de construção e erosão. Se você não tem coral, você não tem construção [do recife]. E se só tem erosão, o recife vai rebaixar e os 2,5 metros de maré, que a gente tem no estado, avançam e causam erosão costeira”.

A bióloga Gislaine Lima, da organização não governamental Projeto de Conservação Recifal, explica que a capital pernambucana, por exemplo, sofreu muito com a expansão urbana de sua orla nas últimas décadas, com a construção de centenas de prédios.

“Cinquenta, 60 anos atrás, a gente tinha três prédios aqui [em Boa Viagem]. Era uma área de casas de veraneio, para pessoas mais ricas de Recife, e uma vila de pescadores”, explica Gislaine. “Todas essas construções aumentam o assoreamento”.

Soluções

Para manter a saúde dos recifes de corais e garantir que eles continuem protegendo a costa e promovendo receitas para os municípios que vivem do turismo costeiro, o estudo sugere algumas medidas, como direcionamento de recursos dos governos para as unidades de conservação, implementação de taxas para a preservação da costa, monitoramento da saúde dos recifes e promoção de um turismo sustentável.  

“Os recifes de coral podem ser mais explorados de forma positiva, não de forma predatória que vá danificar ainda mais os corais. Então, é importante a gente investir em turismo sustentável, o turismo de base comunitária, que envolve as comunidades locais; a ciência cidadã e o turismo regenerativo, no qual as pessoas fazem parte do processo de ajudar a restaurar aquele ambiente”, explica Janaína Bumbeer.

Recife(PE), 24/10/2023 - Comunidade de pescadores de Brasília Teimosa, cujo trabalho depende da preservação dos recifes costeiros, habitat de espécies no ecossistema marinho. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Comunidade de pescadores de Brasília Teimosa, cujo trabalho depende da preservação dos recifes costeiros, habitat de espécies no ecossistema marinho – Fernando Frazão/Agência Brasil

Por meio de nota, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente de Pernambuco informou que os recifes de corais são um dos principais ecossistemas marinhos do estado e que, atualmente, há dez projetos voltados diretamente para sua conservação, como os planos de combate ao lixo no mar e de combate a espécies invasores; e o estabelecimento de regras e zonas para a prática de turismo náutico e para a pesca.

Além disso, a Secretaria informou que desenvolve ações que, “transversalmente, estão a beneficiar os recifes de corais, como a Política Estadual de Resíduos Sólidos, que envolve a capacitação de todos os municípios do estado para lidar com seus resíduos e rejeitos sólidos e líquidos”, informa a nota.

*A equipe da Agência Brasil viajou a convite da Fundação Grupo Boticário

Cerca de 60 mil refugiados e descendentes palestinos vivem no Brasil


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O povo palestino vive há décadas a expulsão e a fuga contínua de seus territórios, devido à ocupação e colonização israelense desde 1948, com a criação do Estado de Israel. A Agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para Assistência aos Refugiados Palestinos (Unrwa) aponta que 6 milhões de pessoas dependem dos serviços da entidade nos Territórios Palestinos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, assim como nos países vizinhos Líbano, Síria e Jordânia. 

Refugiados palestinos

Refugiados palestinos – Antônio Cruz/Agência Brasil

Tal fenômeno não é, portanto, resultado de conflitos pontuais, nem um episódio que ficou no passado. A avaliação é de especialistas e representantes da comunidade palestina no Brasil, que apontam a existência de um regime de apartheid na região.

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A tensão entre Israel e Palestina, que se estende há mais de 70 anos, envolve geopolítica, terras e religião, tendo em vista que a região é sagrada para o judaísmo, o islamismo e o cristianismo.

Além dos campos de refugiados no Oriente Médio, palestinos migraram para diversas partes do mundo, inclusive o Brasil. Estima-se que 60 mil imigrantes e refugiados palestinos, incluindo os descendentes, vivem no país, sendo a maioria em São Paulo, de acordo com levantamento da Federação Árabe-Palestina do Brasil (Fepal). 

É o caso da jornalista palestino-brasileira Soraya Misleh, coordenadora da Frente em Defesa do Povo Palestino, que é filha de um sobrevivente da Nakba – palavra árabe que se refere ao êxodo de palestinos de áreas que se tornariam Israel.

O pai dela tinha 13 anos quando deixou a aldeia em que vivia, junto com cerca de 800 mil palestinos expulsos de suas terras.

“O meu pai é um que foi refugiado e passou a vida inteira sonhando com o retorno, como tantos outros. São seis milhões em campos de refugiados, mais milhares na diáspora. Ele faleceu há cinco meses, com 88 anos, e ele dizia o seguinte: ‘Filha, se eu pisar na minha terra e morrer, eu morro feliz’”, contou. 

Ela lamenta que o pai não tenha conseguido voltar à Palestina. “Nem o direito de pisar na terra dele e morrer feliz, ele teve. Isso é parte da tragédia palestina que continua até hoje, então o que nós estamos pedindo é socorro”, disse.

O avô materno de Aline Baker também fugiu da Palestina, no final da década de 1950, quando tinha cerca de 20 anos. Ele veio sozinho e não sabia falar português. O avô de Aline se instalou em Catanduva, no interior de São Paulo, onde alguns primos já moravam. Com ajuda dos parentes, começou a vender roupas de porta em porta e aprendeu português. Depois, casou-se e passou a viver definitivamente no Brasil.

Mesmo com a morte do avô, Aline conta que a família ainda mantém contato com os parentes na Palestina até hoje. “O contato nunca morreu. Sempre em contato por cartas, naquela época. E ele voltava lá de vez em quando, passeava, levou minha avó, minha mãe”, relatou.

“Ele contava histórias sempre com brilhos nos olhos. A gente sempre teve muita vontade de ir para lá, porque mesmo com a violência que sempre existiu ali, que ele viveu, ele sempre contava com muito amor, como que era o tratamento das pessoas, como que eles viviam lá, sobre a colheita. Ele sempre falou com muito amor e também, lógico, com muita dor”, disse, acrescentando que o avô sempre lamentava ver as cenas de violência nos conflitos na região e como os palestinos são retratados pela mídia.

Em relação à guerra, Aline Baker disse que não há um cidadão na Palestina que não tenha sofrido as consequências do conflito. “Não tem um cidadão que não tenha alguém [da família] que foi assassinado, ou por colono ou por soldados, ou que foi preso”. 

Expulsão

De acordo com o professor de Direito Internacional da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), João Amorim, a expulsão contínua dos palestinos de seu território começou antes mesmo da criação do Estado de Israel, já com a formação de algumas milícias judaicas na época, de resistência inclusive ao mandato britânico da Palestina. Com a Nakba, o processo foi agravado e houve uma grande migração forçada. 

“Imagine você sendo forçado a largar a sua casa agora, com a roupa do seu corpo, e fugir para outro país a pé, ou de carro, com o pouco que você tem. A sensação do desterro é algo que nunca vai abandonar o refugiado. Ele foi forçado a sair do lugar da história dele, dos afetos dele, o prejuízo é imenso. Ele não queria estar onde está e na condição que está”, disse Amorim à Agência Brasil, ressaltando que o Israel tem projeto de expulsar por completo árabes e palestinos da região.

Jornalista palestino-brasileira Soraya Misleh

Jornalista palestino-brasileira Soraya Misleh – Rovena Rosa/Agência Brasil

Soraya considera que o povo palestino resiste, há 75 anos, a uma colonização “brutal” e uma “limpeza étnica”. “Enquanto falo com você, mais uma família palestina está sendo dizimada. Gaza, em que vivem 2,4 milhões de palestinos sob cerco desumano há 15 anos e uma crise humanitária dramática, já tinha enfrentado outros bombardeios massivos e frequentemente vinha sendo alvo do que chamamos de bombardeios ‘a conta-gotas’ por parte de Israel, por algumas horas ou um dia, sem que o mundo se desse conta”, disse em relação à violência que assola a região. 

O governo de Israel argumenta ter o direito e dever de se defender dos ataques, como o iniciado no dia 7 de outubro, por uma questão de existência. Os israelenses alegam que o grupo Hamas, que controla a Faixa de Gaza há mais de uma década, quer destruir o país, que tem obrigação de proteger seus cidadãos.

Pelo menos 8.306 palestinos foram mortos, incluindo 3.457 crianças, em ataques israelenses em Gaza desde 7 de outubro, informou o Ministério da Saúde da Faixa de Gaza, controlada pelo Hamas, nesta segunda-feira (30). Segundo Israel, o ataque do Hamas deixou mais de 1.400 mortos e 200 pessoas foram feitas reféns pelo grupo.

Outro conflito recente ocorreu em 2021 em meio a disputas pelo avanço de Israel sobre Jerusalém. Foram dez dias de ataques, resultando em 232 palestinos mortos, segundo autoridades de saúde em Gaza, e cerca de 1,9 mil feridos em ataques aéreos. Na época, Israel informou ter matado pelo menos 160 combatentes. Foram mortos 12 israelense, com centenas de feridos, segundo Israel.

Em 2018, cerca de 40 mil manifestantes, segundo dados do Exército israelense, marchavam na divisa entre Gaza e Israel para marcar os 70 anos da Nakba e foram atacados a tiros, deixando 2.771 feridos, sendo mais de 200 menores de idade.

Refúgios em conflito

Outra realidade que envolve os refugiados é serem forçados a ir para países que também enfrentam conflitos, como a Síria. Sem condições de permanência, precisam ser novamente deslocados.

O padre Marcelo Maróstica Quadro e vice-diretor da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, entidade que faz acolhimento no Brasil, aponta que parte dos palestinos que estão no país foram registrados como sírios, mas, na verdade, são palestinos que já estavam deslocados. 

“No Brasil, deve ter muito mais palestinos por causa desse processo de subnotificação, porque eles estavam em outro país, vieram de outro país, pela própria situação difícil do reconhecimento do Estado palestino”, avalia.

De acordo com ele, em 2007, houve um processo de reassentamento de 108 palestinos no Brasil, que vieram de um campo de refugiados na Jordânia. Um grupo ficou em São Paulo, e o restante foi para o Rio Grande do Sul.

“Terra com povo” 

Para o professor João Amorim, o discurso que a Palestina era uma terra sem povo não condiz como a verdade, argumento usado por lideranças sionistas. Ele explica que o plano da ONU, patrocinado pela Grã-Bretanha em 1947 e 1948, contava com a divisão do território para contemplar os judeus, o que viria a ser Estado de Israel, e um território para os árabes e palestinos. 

“Se era uma terra desocupada, por que que dividiram em dois pedaços? Dividiram em dois pedaços porque existia já historicamente uma série de povos vivendo naquele território”, concluiu. 

Segundo o especialista, sob o Império Romano, há mais de dois mil anos, havia na área não apenas os judeus, mas árabes, berberes, fenícios, diversas etnias e tribos convivendo ali. “Aquela região nunca foi despovoada, nunca foi um deserto, é uma inverdade você dizer que foi colocada ali porque era uma terra sem povo”, acrescentou.  

O sionismo é um movimento surgido no século 19 na comunidade judia na Europa que buscava uma solução para a questão judaica. Naquela época, o antissemitismo – que é a discriminação contra os povos semitas, entre os quais, está o povo judeu – estava em crescimento no continente.

Foi o sionismo enquanto movimento político que deu corpo à criação do Estado de Israel, em 1947, logo após o Holocausto na Europa, quando cerca de 6 milhões de judeus foram assassinados, principalmente em campos de concentração da Alemanha nazista. O termo sionismo faz referência ao Monte Sião, nome de uma das colinas de Jerusalém e usado como sinônimo de terra prometida, ou terra de Israel.

Ualid Rabah é filho de pai e mãe refugiados da Palestina, vindos para o Brasil na década de 1960. “Nós fomos expulsos do [território] que Israel se tornou, em 78% da nossa terra roubada, 88% de nós fomos expulsos. Somos de uma terra que vive a ocupação, na Cisjordânia, em Gaza e Jerusalém Oriental”, disse. 

Rabah teme que a proporção da violência do atual conflito represente o extermínio de seu povo. “Somos de uma região que [se] vive sobre escombros e cadáveres, de uma região que morre 22 palestinos para cada israelense, que vive um regime de apartheid, e que neste momento vive este morticínio”, lamentou o presidente da Fepal. 

Prisão a céu aberto 

Especialista em Direito Internacional, João Amorim afirma que a Faixa de Gaza é considerada pelas Nações Unidas a maior prisão a céu aberto do mundo. Desde o bloqueio imposto por Israel, em 2007, a região tem acesso limitado a energia e água, cerca de cinco horas por dia, não há emprego para todos e os habitantes não podem entrar e sair quando desejam, conforme o professor.  

 Palestina. 29/10/2023   Israel amplia ataques e determina que população de Gaza vá para o Sul. Palestinos procuram vítimas no local dos ataques israelenses a casas, na cidade de Gaza.  REUTERS/Mutasem Murtaja

29/10/2023 Israel amplia ataques e palestinos procuram vítimas na cidade de Gaza. REUTERS/Mutasem Murtaja 

Ualid Rabah disse que o cerco, inclusive, tem impedido a retirada dos palestinos da zona de conflito. “O processo de tornar Gaza inabitável visa, aos poucos, retirar os palestinos dali. Fazer com que os palestinos não sigam mais vivendo na sua terra”, avaliou.

Desde o início do conflito, o governo brasileiro atua para retirar brasileiros que estão em Gaza. Cerca de 30 brasileiros e familiares estão sendo acompanhados pela Representação do Brasil em Ramala, na Cisjordânia, e aguardam a abertura da fronteira com o Egito. A situação é preocupante porque, apesar da Embaixada enviar dinheiro, há dificuldade em se encontrar água e alimentos. Eles estão em casas alugadas pelo governo brasileiro.

Confira as principais apostas para os temas da redação do Enem


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Temas ligados ao meio ambiente, saúde, tecnologia e inteligência artificial são algumas das apostas de professores para a prova de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que será aplicada no próximo sábado (5). Além de conhecer as exigências sobre a estrutura do texto, os alunos devem estar bem informados sobre os principais acontecimentos no Brasil.

O eixo do meio ambiente é uma das principais apostas da professora de redação Roberta Panza, da plataforma de estudos Descomplica. “É um tema muito atual e, de uns anos para cá, a discussão sobre o clima tem sido cada vez mais presente”, diz. Nesse eixo, podem ser abordados temas como aquecimento global e mudanças climáticas, educação ambiental e crise climática, hídrica e energética. 

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Os impactos das mudanças climáticas também estão entre as apostas da professora de língua portuguesa e redação do colégio Mopi Tatiana Nunes Camara. “A consciência dos cidadãos, no que diz respeito a como manter equilibrado o meio ambiente, é o ponto de partida para que os impactos negativos sejam minimizados”, afirma Tatiana. Questões sobre insegurança hídrica, desmatamento e mudanças climáticas também são citadas pela professora Mariana Bravo, do Ateliê da Redação.

A inteligência artificial é outro tema que pode ser abordado no tema da redação, na avaliação da professora Tatiana, por ser um assunto em voga na contemporaneidade. “Há segmentos da sociedade que rechaçam os recursos criados a partir da inteligência artificial, enquanto há muitas pessoas que [a] veem como uma grande oportunidade de evolução em vários setores da sociedade, inclusive provocando impactos profundos na educação brasileira”, diz a professora, lembrando também a abordagem da exclusão digital. Para a professora Roberta, o Enem pode trazer o tema da inteligência artificial e as mudanças que o recurso pode gerar no mercado de trabalho, especialmente para a juventude. 

Na saúde, é possível que apareçam temas como obesidade, sedentarismo e os hábitos de vida que levam a doenças, acrescenta Roberta. Para a professora Mariana, o tema pode vir abordando o uso de “drogas da inteligência” para melhorar a performance cerebral de estudantes e trabalhadores sem que haja diagnóstico, fenômeno chamado de “doping cognitivo” ou “psiquiatria cosmética”. A eficiência da vacinação, a importância do SUS (Sistema Único de Saúde), o combate às infecções sexualmente transmissíveis e os transplantes no Brasil são temas citados pela professora de redação do Cursinho CPV Isabela Arraes.

Entre os temas ligados à educação, as mudanças no ensino médio, a alfabetização e a evasão escolar no contexto da pós-pandemia de covid-19 são possibilidades de abordagem, segundo a professora Roberta. Outra abordagem possível é a importância da educação de jovens e adultos. “A formação escolar é importante, principalmente, em um país como o Brasil, no qual as desigualdades sociais são tão latentes”, diz Tatiana.

Outras possibilidades de assuntos para a redação do Enem deste ano são: fake news, bullying e violência nas escolas, segurança pública, violência policial, combate à fome no país e insegurança alimentar, questão habitacional no Brasil, pessoas em situação de rua, trabalho análogo à escravidão, etarismo, idosos e mães “solo”. 

O Enem 2023 será aplicado nos dias 5 e 12 de novembro. As notas das provas podem ser usadas para concorrer a vagas no ensino superior público, pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), a bolsas de estudo em instituições privadas de ensino superior pelo Programa Universidade para Todos (ProUni) e a financiamentos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).

Foco na estrutura

Se, por um lado, muitos professores gostam de trabalhar vários temas possíveis para a redação com os alunos, outros defendem que saber o tema com antecedência não é tão importante para o desempenho do aluno. “Meu conselho para a redação é não se preocupar com o tema. O tema que vier, vamos fazer o básico para garantir uma nota alta, e se vier um tema que ele domina melhor, ainda consegue firular para garantir a nota mil”, diz a professora Carol Mendonça, do canal Português para Desesperados. 

Segundo Carol, é importante credibilizar os argumentos apresentados com alguma associação artística, estatística, resultado de pesquisa, retomada histórica ou com a fala de um especialista, por exemplo. “Sempre tentar sair do campo da opinião para o campo do fato. Independentemente do que você pensa, vai colocar o que pode ser provado”, aconselha a professora.  

Para o professor Luis Junqueira, cofundador da plataforma de letramento Letrus, o mais importante é seguir a estrutura da redação, fazendo uma contextualização geral, definindo a tese, e apresentando uma proposta de intervenção social. Segundo ele, os textos de apoio e as informações que estão na prova já são suficientes para dar uma base para o aluno sobre o assunto. 

 

“Se você tem insegurança com o tema que caiu na prova, você pode traduzir as informações do infográfico. O texto vai ter que ter uma tese, um contexto e uma orientação para a proposta de intervenção social. Independente do tema, a estrutura da redação é a mesma, concentre-se nessa estrutura”, diz o professor.   

 

Na redação do Enem, os candidatos deverão fazer um texto dissertativo-argumentativo de até 30 linhas sobre um tema de ordem social, científica, cultural ou política, defendendo um ponto de vista (uma opinião a respeito do tema proposto), apoiado em argumentos consistentes, estruturados com coerência e coesão. Também deve ser elaborada uma proposta de intervenção social para o problema apresentado no desenvolvimento do texto. Essa proposta deve respeitar os direitos humanos.

Ocupação de áreas de risco para moradia triplicou no país desde 1985

A ocupação para moradia de áreas reconhecidamente suscetíveis a inundações, deslizamentos, secas, estiagens e outros desastres climáticos aumentou 2,8 vezes no período de 1985 a 2022, ano em que 123 mil hectares de áreas de risco do país passaram a estar ocupadas.

Os dados, divulgados nesta terça-feira (31), são de levantamento do MapBiomas, rede colaborativa formada por organizações não governamentais (ONGs), universidades e empresas de tecnologia.

O crescimento da ocupação de territórios de risco foi proporcionalmente maior nas áreas de favelas, onde esse aumento foi de 3,4 vezes no período de 1985 a 2022. De acordo com o levantamento, em 2022, 3% da área urbana total estava em regiões de risco, considerando uma média nacional. Nas favelas, esse percentual chegou a 18%.

Entre as situações de risco avaliadas estão os fundos de vales, ou seja, áreas que ficam a, no máximo, três metros de distância vertical do rio mais próximo. O MapBiomas identificou 425 mil hectares de áreas urbanas nessa situação, mas que ainda não são oficialmente reconhecidas como áreas de risco. Dois terços (68%) desta ocupação ocorreram nos últimos 38 anos. De acordo com o levantamento, a ocupação muito próxima aos leitos quadruplicou de 1985 a 2022.

“Os dados mostram uma situação preocupante, onde as ocupações precárias e com maior vulnerabilidade a eventos extremos cresceram rapidamente. Enquanto as áreas urbanas no Brasil triplicaram desde 1985, a ocupação muito próxima aos leitos dos rios quadruplicou e a ocupação em áreas de alta declividade quintuplicou no mesmo período de tempo”, destaca um dos coordenadores de mapeamento de Áreas Urbanizadas do MapBiomas, Julio Pedrassoli.

Áreas íngremes

O levantamento avaliou ainda o cumprimento da lei 6766 de 1979, que proíbe ocupação e loteamentos em terrenos com declividade superior a 30%, suscetíveis a deslizamentos. Segundo o documento, 98,8% das áreas ocupadas cumprem a legislação. Porém, a ocupação das áreas proibidas aumentou 5,2 vezes desde 1985.