Professora afirma que 7 de Setembro foi construído de forma elitista


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“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante”. Assim começa o Hino Nacional brasileiro, em alusão ao dia 7 de setembro de 1822, quando o Dom Pedro I bradou: “Independência ou morte”, tornando o Brasil uma pátria livre de Portugal. A história, no entanto, embora repetida e eternizada em pinturas, livros e até mesmo no hino do país, não é tão simples assim, segundo historiadoras entrevistados pela Agência Brasil. Não ocorreu em apenas um dia e envolve muitas disputas, interesses, questões sociais e econômicas que, de certa forma, perpetuam-se até os dias de hoje.

Rio de Janeiro (RJ) -  A professora Adriana Barreto para matéria Independência 7 de setembro
Foto: Clara Barreto/Divulgação

Professora Adriana Barreto diz que a historiografia já usa o termo “independências do Brasil” – Clara Barreto/Divulgação

“Além de ter sido um processo longo, de muitos anos, as lutas pela independência – e esse é um ponto importante, por muito tempo se acreditou que a independência do Brasil foi uma grande negociação intraelite, – obedeciam a lógicas econômicas, políticas, sociais e demográficas próprias, particulares às várias capitanias da América portuguesa. Só posteriormente essas capitanias se tornariam uma unidade chamada Brasil. Hoje, a historiografia já usa até o termo no plural, as independências do Brasil”, explica a historiadora Adriana Barreto, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

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Naquela época, não havia estados, e o Brasil era dividido nas chamadas capitanias, criadas pelo rei português D. João III em 1534. Esses 15 lotes de terras foram entregues a pessoas de confiança da coroa responsáveis por desenvolvê-las, sempre em prol de Portugal. O sistema vigorou até pouco antes da data formal da independência, em 1822.

O Brasil, no entanto, após quase 300 anos da dominação portuguesa, prospera economicamente e passa a ter uma elite local que deseja usufruir cada vez mais da produção, sem precisar pagar impostos a Portugal. A própria coroa portuguesa estava presente no Brasil desde 1808, quando a família real fugiu da Europa por conta das invasões de Napoleão Bonaparte, o que distanciava ainda mais as relações com Portugal.

Segundo a historiadora Wlamyra Albuquerque, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), na época, o Brasil se sustentava em dois pilares fundamentais: por um lado a produção açucareira e do café e, por outro lado, a escravidão. “Naquele momento estava na berlinda a manutenção de uma sociedade escravista agrícola e que demandava uma independência, uma autonomia política para fazer com que esses negócios continuassem funcionando, continuassem a ser muito lucrativos. A ruptura com Portugal é um arranjo para fazer com que esse território se transformasse em um país com liberdade econômica para continuar fazendo valer esses negócios baseados na escravidão”, diz a historiadora, que acrescenta: “Surgimos como nação para tentar manter os lucros com uma economia muito pujante na época, que era a economia açucareira e do café baseada no trabalho escravo.”

Adriana Barreto ressalta que não foram apenas as elites que tiveram um papel importante nesse acordo de independência.

“A tese da ausência de lutas e de participação popular no processo de independência do Brasil se enraizou muito na análise do que se passou no Rio de Janeiro. As narrativas sempre destacavam as viagens e costuras políticas realizadas por D. Pedro com as elites de São Paulo e Minas Gerais. Todavia, se a gente foca sobre o que se passou nas ruas da cidade entre 1821 e 1822, é possível ver uma participação popular incrível”, diz a historiadora.

Escolha da data

O Brasil tornou-se independente de Portugal, mas seguiu tendo como imperador D. Pedro I e seguiu com a escravidão até 1888. A data de 7 setembro, como conta Adriana Barreto, foi uma escolha. “Uma data concorrente era o 12 de outubro, aniversário de D. Pedro. Foi nesta data que, também em 1822, ocorreu a aclamação do príncipe D. Pedro como imperador do Brasil. Mas, com sua abdicação ao trono, em abril de 1831, a partir de um movimento político liberal com forte base popular, o 12 de outubro foi extinto, e o 7 de setembro se firmou como data de fundação do Império do Brasil”, destaca.

Apesar da escolha de uma data, segundo as historiadoras entrevistadas, a independência foi um processo que durou anos. Prova disso é a celebração da Independência no dia 2 de julho, na Bahia. A data marca a expulsão, em 1823, das tropas portuguesas que ainda resistiam à Independência declarada no ano anterior, em um movimento que contou com a participação popular. Qualquer autoridade lusitana remanescente foi extirpada do poder.

O imaginário em torno da data, de um brado retumbante, um povo heroico, e, sobretudo, uma data capaz de unir toda a população, também foi uma construção.

Quadro “Independência ou Morte!”, do pintor Pedro Américo, no Museu do Ipiranga, na Vila Monumento.

Quadro Independência ou Morte!, do pintor Pedro Américo, no Museu do Ipiranga, na Vila Monumento – Rovena Rosa/Arquivo/Agência Brasil

“É uma história branca. Indígenas não aparecem, população negra não aparece. A própria ideia de povo está muito diluída, a gente não tem uma história dinâmica e polifônica”, observa a historiadora Ynaê Lopes dos Santos, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF).

De acordo com Ynaê dos Santos (foto), é a partir da construção de independência e da formação do Brasil como país que vão sendo criados também os mitos de existência de uma sociedade pacífica, inviabilizando as várias disputas e revoltas que marcam a história brasileira.

Esses elementos também reforçam o mito de uma democracia racial no país, ou seja, que não existe preconceito por conta de raça, e que o racismo, quando se manifesta, é algo individual.

“Essa construção permite o exercício de poder de um grupo que construiu para si esse poder. O mito da democracia racial mantém a ordenação racista, mantém todos os privilégios, naturalizando esses privilégios”, diz ela. “Esse 7 de Setembro é a construção de uma história muito branca e elitista e é proposital.”

Para os indígenas, que já habitavam o Brasil antes mesmo de ele ser chamado Brasil, a construção do imaginário do 7 de Setembro é ainda mais excludente.

Rio de Janeiro (RJ), 04/09/2023 - Marize Vieira de Oliveira, Marize Guarani, professora de história., concede entrevista em sua casa, Duque de Caxias, Baixada Fluminense. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil

Marize Guarani vê processo de negação dos povos indígenas – Tânia Rêgo/Agência Brasil

“Para falar do 7 de Setembro é fundamental a gente entender o que foi, de 1500 até hoje, a construção de um país, que primeiro era colônia e, depois, passa a ser um país na independência. Em todo esse período a gente vai ter uma negação dos povos indígenas, vai construindo uma narrativa de que nós não temos nada para oferecer”, diz a historiadora e professora Marize Guarani, uma das fundadoras da Associação Indígena Aldeia Maracanã.

Segundo Ynaê dos Santos, todas essas questões precisam ser levadas em consideração nas comemorações da independência do Brasil. “Eu acho que o 7 de Setembro, por mais que seja uma data muito complicada, é um marco que ainda funciona para explicar uma série de questões. O que eu acho que precisa ser feito é um olhar crítico para essa data, entendendo que essa data não é fim do processo, porque é assim que a gente entende a independência do Brasil, como se começasse e terminasse no 7 de setembro. Ela é o início de um processo que vai se desenrolar durante muitos meses e só vai terminar no dia 2 de julho”, diz.

“É fundamental também que, junto com essa compreensão mais processual, traga outros sujeitos que participaram dessa história, para que a gente tenha inclusive uma compreensão mais profunda do dinamismo da história brasileira”, completa.

Inmet prevê mais chuva forte em parte do Rio Grande do Sul


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O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informou nesta quarta-feira (6) que novas áreas de instabilidade vão ganhar força e provocar mais chuva em parte do Rio Grande do Sul agora à noite e ao longo de todo o feriado de 7 de Setembro. Nos últimos dias, um ciclone extratropical atingiu a região sul do país e provocou a morte de 36 pessoas no estado

A previsão indica grandes acumulados de chuva, principalmente, no extremo sul do estado gaúcho, como volumes que podem superar 70 milímetros (mm) em algumas áreas. Esse volume indica chuva forte e pode provocar transbordamento de rios e enchentes em várias regiões do estado.

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De acordo com o Inmet, para sexta-feira (8) o avanço de uma nova frente fria vai potencializar a instabilidade e provocar acumulados de chuva de até 100 mm em parte do Rio Grande do Sul, podendo atingir as mesmas áreas impactadas pela chuva dos últimos dias.

A Meteorologia alerta a população para a importância de acompanhar as atualizações da previsão do tempo e dos avisos meteorológicos especiais nos próximos dias, além de seguir as recomendações da Defesa Civil Nacional e da Defesa Civil do Rio Grande do Sul. 

A Defesa Civil estadual do Rio Grande do Sul emitiu um alerta de temporais, descargas elétricas, eventual queda de granizo e rajadas de vento, que podem durar até às 10h do dia 7 de setembro.

Balanço

Desde a última sexta-feira (1) até a tarde a última segunda-feira (4), um amplo canal de ar quente e úmido, associado a um sistema de baixa pressão, indicava a chegada do ciclone extratropical que provocou forte instabilidade e chuva forte em áreas da Região Sul, em especial na metade norte do Rio Grande do Sul, o que resultou em acumulados significativos de chuva nos primeiros cinco dias de setembro, como os registros de cerca 297,8 mm em Passo Fundo, 291,8 mm em Cruz Alta e 290 mm em Serafina Corrêa, o que provocou o transbordamento de rios e o alagamento de várias cidades. 

Dados do Inmet, considerando o mês de setembro, mostra quebra de recorde de acumulado de chuva em 24h nas estações meteorológicas de Passo Fundo, Cruz Alta e Serafina Corrêa.

Intensificação das chuvas

Imagens de satélite exibem o centro de baixa pressão atmosférica estacionário, posicionado no extremo nordeste da Argentina, entre o Paraguai e o Rio Grande do Sul. Na segunda-feira (4) à tarde, a massa de ar quente  começou a se deslocar para o estado gaúcho até se converter no Oceano Atlântico em ciclone extratropical, quando houve a passagem de uma frente fria que trouxe o ciclone, provocando o transbordamento dos rios e a enchente em várias regiões do Rio Grande do Sul, principalmente na região norte do estado.

Em pronunciamento, Lula defende democracia e união do país


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Em pronunciamento alusivo ao Dia da Independência, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou em defesa da democracia, da soberania e da união nacional. O discurso foi veiculado em cadeia nacional de rádio e televisão, na noite desta quarta-feira (6), véspera da data, celebrada


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 amanhã (7), quando Lula participará do tradicional desfile cívico na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

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“O Brasil voltou a sorrir. Nosso país voltou a crescer com inclusão social, distribuindo renda e combatendo as desigualdades. No passado, quando o Brasil crescia, quem ganhava era apenas uma minoria já muito rica. Agora, quando a economia cresce, a vida melhora para todo mundo”, destacou Lula no início do pronunciamento.

Em seguida, ele enumerou dados positivos da economia, como o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, soma dos bens e riquezas do país), aumento real do salário mínimo, geração de empregos com carteira assinada, aumentos salariais, renegociação de dívidas


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 e melhora no preço dos alimentos.

Democracia

Ao falar sobre democracia, Lula afirmou que ela é a base para a realização das conquistas sociais. Ele defendeu as medidas adotadas pelo governo para ampliar a participação social na discussão de políticas públicas.

“Democracia é o direito de participar das discussões que impactam as vidas das pessoas. Por isso, nós criamos os conselhos sociais e trouxemos de volta as conferências nacionais, para que a sociedade nos ajude a desenhar as políticas públicas. Por isso, nós fizemos o Plano Plurianual mais Participativo da história, para traçar as principais metas do governo para os próximos quatro anos. Democracia é não apenas a matéria prima dos nossos sonhos. É também a ferramenta para torná-los realidade”, frisou.

Dia de união

Lula citou a união como alicerce da independência, pregando contra o ódio, e destacando a volta do diálogo institucional entre os Poderes, os entes federativos e a sociedade civil. “O entendimento voltou a ser palavra de ordem. Investimos no diálogo com o Congresso Nacional, os governos estaduais, as prefeituras, o Poder Judiciário, os partidos políticos, os sindicatos e a sociedade organizada”, afirmou.


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“Por isso, amanhã não será um dia nem de ódio, nem de medo, e sim de união. O dia de lembrarmos que o Brasil é um só. Que sonhamos os mesmos sonhos. Que podemos ter sotaques diferentes, torcer para times diferentes, seguir religiões diferentes, ter preferência por este ou por aquele candidato, mas que somos uma mesma grande nação, um único e extraordinário povo. Em apenas oito meses, recolocamos o Brasil no rumo da democracia, da soberania e da união. Do desenvolvimento econômico com inclusão social”, completou.

Soberania

Em relação à soberania, Lula argumentou que é “mais do que cumprir a importante missão de resguardar nossas fronteiras terrestres e marítimas e nosso espaço aéreo”.

“É também defender nossas empresas estratégicas, nossos bancos públicos, nossas riquezas minerais e fortalecer nossa agricultura e nossa indústria. É preservar a Amazônia e os demais biomas. Nossos rios, nosso mar, nossa biodiversidade. É falar de igual para igual com qualquer país, e se fazer ouvir nos principais fóruns internacionais, seja sobre o enfrentamento da crise climática; a busca pela paz na Terra; o combate à fome e às desigualdades ao redor do mundo; e a luta pelo trabalho decente para todos os seres humanos”, enfatizou.

Lula prosseguiu citando iniciativas para combater as desigualdades de renda, gênero e raça, como o lançamento de um novo programa de combate à fome, e investimentos em infraestrutura, saúde, moradia e educação.

Vini Jr e Debinha estão entre os finalistas ao prêmio Bola de Ouro


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A revista francesa France Football divulgou nesta quarta (6) os finalistas para diversas categorias de seus prêmios individuais, dentre eles os de melhor jogador e jogadora do mundo na última temporada. Vinicius Junior, entre os homens e Debinha, entre as mulheres, foram os únicos brasileiros apontados entre os 30 finalistas em cada uma das listas. A entrega das premiações será feita em 30 de outubro.

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O atacante do Real Madrid, de 23 anos, foi indicado pela segunda vez na carreira, a segunda consecutiva.

Entre os outros 29 concorrentes, os destaques são o retorno de Lionel Messi, agora campeão do mundo com a seleção argentina, que havia ficado de fora da lista em 2022 e a ausência de Cristiano Ronaldo pela primeira vez em 20 anos. Os dois são apenas alguns exemplos de jogadores de destaque que deixaram o futebol europeu no último ano. O vencedor da última edição da Bola de Ouro, o francês Karim Benzema, é um deles. Ele agora atua pelo Al-Ittihad, da Arábia Saudita. Benzema está entre os 30 finalistas.

Messi é apontado como um forte candidato a levar o prêmio, que seria o seu sétimo na carreira. O norueguês Erling Haaland, do Manchester City (recém-eleito melhor jogador da temporada passada pela UEFA) e o francês Kylian Mbappé, do PSG, artilheiro da Copa do Mundo do Catar pela seleção de seu país, são outros favoritos.

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Atleta do Kansas City e atacante da seleção brasileira, Debinha está entre as 30 indicadas ao prêmio de melhor jogadora do Bola de Ouro – por Lucas Figueiredo/CBF

Debinha está entre as 30 melhores jogadoras do mundo

Na lista relativa às mulheres, o Brasil tem o mesmo número de nomes indicados: apenas um, o da atacante Debinha, atleta do Kansas City Current, dos Estados Unidos.

Entre as 30 indicadas, quatro fizeram parte da campanha que culminou no inédito título da Espanha na recém-encerrada Copa do Mundo da Austrália e da Nova Zelândia: Aitana Bonmatí, Olga Carmona, Salma Paralluelo e Alba Redondo.

Curiosamente, a vencedora das últimas duas Bolas de Ouro, Alexia Putellas, que também fez parte da campanha campeã, ficou de fora por ter sofrido uma grave lesão que minimizou seu impacto.

Entre os outros prêmios concedidos pela revista, somente um brasileiro aparece indicado. É o goleiro Ederson, do Manchester City e da seleção brasileira, que está entre os finalistas do Troféu Yashin, entregue ao melhor goleiro da temporada.

Lula indica dois ministros para o Superior Tribunal de Justiça


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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou nesta quarta-feira (6) dois desembargadores para ocuparem vagas de ministros do Superior Tribunal Federal (STJ).

Lula indicou para as vagas os desembargadores Teodoro Silva Santos, do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), e José Afrânio Vilela, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG). Os nomes foram escolhidos a partir de uma lista enviada pelo tribunal à Presidência da República.

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Os magistrados vão ocupar as vagas abertas pela aposentadoria de Jorge Mussi e o falecimento de Paulo de Tarso Sanseverino.

Para tomarem posse, os novos ministros precisam ser aprovados pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado e pelo plenário da Casa. A data da sabatina ainda será marcada.

Mulheres

Na semana passada, Lula indicou para o STJ a advogada Daniela Teixeira. Caso tenha o nome aprovado pelo Senado, a ministra se tornará a sétima mulher na atual composição, que possui 33 cadeiras.

O STJ é presidido pela ministra Maria Tereza de Assis Moura, indicada em 2006, no primeiro mandato de Lula.

Também fazem parte do tribunal as ministras Regina Helena Costa, última mulher a tomar posse, em 2013, além de Assusete Magalhães, Laurita Vaz, Nancy Andrigui e Isabel Galotti.

Em 1999, a ex-ministra Eliana Calmon e atual ministra Nancy foram as primeiras indicadas para o STJ. No ano seguinte, Ellen Gracie foi a primeira mulher indicada para o Supremo Tribunal Federal.

STF anula limite temporal para regularização de terras de fundo


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O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quarta-feira (6) anular o limite temporal para regularização de territórios de comunidades tradicionais de fundo e fecho de pasto da Bahia.

A partir de uma ação protocolada em 2017 pela Procuradoria-Geral da República (PGR), o Supremo declarou inconstitucional o trecho da Lei 12.910/2013, da Bahia, que estabeleceu prazo de 31 de dezembro de 2018 para apresentação de requerimento com objetivo de reconhecer a posse das terras.

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Na ação, a PGR afirmou que a norma limitou o direito à existência das comunidades ao definir limite temporal de cinco anos após a edição da lei para regularização.

Fundo e fecho de pasto

As comunidades de fundo e fecho de pasto são tradicionais do sertão da Bahia e possuem cerca de 200 anos de história.

Elas são caracterizadas pela moradia de camponeses que praticam a agricultura familiar de subsistência pelo semiárido baiano.

Nas terras, não há um único dono, e a criação coletiva de animais é feita nas chamadas áreas de fundo de pasto, nas quais os animais são mantidos em áreas fixas, dentro da comunidade.

Nas terras de fecho de pasto, os animais são criados em rebanhos que ficam distantes do território, por falta de espaço nas comunidades. Nesses locais, o rebanho é levado por vaqueiros, que chegam a percorrer um dia de viagem para chegar ao pasto.

Votos

A maioria de votos contra o marco temporal foi obtida a partir da manifestação da relatora e presidente do STF, ministra Rosa Weber.

A ministra entendeu que o limite temporal é inconstitucional. Para Rosa Weber, as comunidades tradicionais têm direito a reivindicar os documentos de territórios ocupados por séculos a qualquer tempo.

Rosa Weber também fez um apelo para que o governo da Bahia tome medidas legislativas, administrativas e judiciais para proteger os membros das comunidades.

“Negar a garantia às terras tradicionalmente ocupadas é negar a própria identidade, o reconhecimento da comunidade tradicional na sua singularidade cultural. É condenar um grupo culturalmente diferenciado, centrado na particular relação com o local que estrutura suas formas de criar, fazer e viver”, afirmou a ministra.

Em seguida, o ministro Cristiano Zanin também reconheceu que as comunidades de fundo e fecho de pasto são protegidas pela Constituição.

Para o ministro, o limite temporal “aprisiona as futuras gerações”, que não poderiam solicitar o direito ao reconhecimento das terras.

“Ao estabelecer limite temporal para o reconhecimento e regularização fundiária das referidas comunidades tradicionais, o estado da Bahia coloca em risco a própria existência digna e o desenvolvimento dos indivíduos que integram os referidos grupos”, afirmou.

O voto da relatora foi seguido pelos ministros Alexandre de Moraes, Edson Fachin, Luiz Fux, Roberto Barroso e Cármen Lúcia.

Nunes Marques divergiu em parte e afirmou que os estados podem fixar prazos para o reconhecimento de terras. No entanto, o ministro entendeu, que, no caso específico da Bahia, o prazo estipulado pela lei foi irrazoável e deveria contar a partir do julgamento de hoje.

Entenda

Os territórios das comunidades de fundo e fecho de pasto começam a surgir a partir do declínio das sesmarias, pedaços de terras distribuídas pela Coroa Portuguesa a latifundiários durante o período colonial.

Após o declínio do ciclo do açúcar na Bahia, no século 18, as terras começaram a ser abandonadas, e trabalhadores dos latifúndios passaram a viver nelas. Os territórios se consolidaram a partir do desinteresse econômico pelo sertão baiano nos séculos 19 e 20.

Ao longo dos anos, a atividade rural passou por gerações de camponeses. A partir de 1970, com a expansão do agronegócio pelo interior da Bahia, iniciaram-se os avanços ilegais de terra em direção aos territórios comunidades de quilombolas e de fundo e fecho de pasto.

Os conflitos envolvem grilagem das terras comunais, adulteração de documentos de posse uso de violência para intimidar as pessoas oriundas das comunidades.

De acordo com organizações que aturam em defesa dos agricultores, existem cerca de 1,5 mil comunidades de fundos e fechos de pasto na Bahia.